O NORTE DE MINAS NÃO VIROU DESERTO. QUEM GANHOU COM ESSA NARRATIVA?

Durante décadas percorri o Norte de Minas. Primeiro como mascate, conhecendo de perto o sertão e seu povo. Depois, há mais de vinte anos, como jornalista e pesquisador, registrando sua história, suas riquezas, seus desafios e suas potencialidades. Foi justamente por conhecer essa região palmo a palmo que sempre me causou estranheza uma narrativa que, durante muitos anos, ganhou espaço em jornais, revistas e organizações não governamentais: a de que o Norte de Minas se transformaria em um deserto em apenas vinte anos.

Por Aurélio Vidal

Durante décadas percorri o Norte de Minas. Primeiro como mascate, conhecendo de perto o sertão e seu povo. Depois, há mais de vinte anos, como jornalista e pesquisador, registrando sua história, suas riquezas, seus desafios e suas potencialidades.

Foi justamente por conhecer essa região palmo a palmo que sempre me causou estranheza uma narrativa que, durante muitos anos, ganhou espaço em jornais, revistas e organizações não governamentais: a de que o Norte de Minas se transformaria em um deserto em apenas vinte anos.

Diversas reportagens afirmavam que o processo de desertificação seria inevitável. Algumas chegavam a anunciar um verdadeiro colapso ambiental, sugerindo que o sertão mineiro caminhava para um cenário sem retorno.

Os anos passaram.

E eu continuei percorrendo cada canto desta região.

Continuei visitando comunidades rurais, acompanhando produtores, registrando nascentes, veredas, serras, áreas de cerrado, projetos de irrigação, unidades de conservação, plantações, lavouras e inúmeras iniciativas de desenvolvimento.

Continuei visitando comunidades rurais, acompanhando produtores, registrando nascentes, veredas, serras, áreas de cerrado, projetos de irrigação, unidades de conservação, plantações, lavouras e inúmeras iniciativas de desenvolvimento.

Hoje, olhando para trás, faço uma pergunta simples: onde está o deserto anunciado?

Hoje, olhando para trás, faço uma pergunta simples: onde está o deserto anunciado?

É evidente que o Norte de Minas enfrenta problemas históricos. Sofremos com longos períodos de estiagem, convivemos com crises hídricas, degradação ambiental em alguns locais e desafios relacionados ao uso racional da água. Esses problemas existem e precisam ser enfrentados com seriedade.

Mas isso é completamente diferente de afirmar que toda uma região caminharia inevitavelmente para se transformar em um deserto.

Continuei visitando comunidades rurais, acompanhando produtores, registrando nascentes, veredas, serras, áreas de cerrado, projetos de irrigação, unidades de conservação, plantações, lavouras e inúmeras iniciativas de desenvolvimento.

A realidade mostrou um cenário muito mais complexo.

Enquanto se anunciava o fim do sertão, o Norte de Minas consolidou-se como importante produtor de frutas, café, eucalipto, sementes, carne, leite e produtos da agricultura familiar. Novos projetos de irrigação foram implantados, a fruticultura expandiu mercados, o turismo regional ganhou força, e inúmeras comunidades continuaram vivendo, produzindo e preservando seus territórios.

Enquanto se anunciava o fim do sertão, o Norte de Minas consolidou-se como importante produtor de frutas, café, eucalipto, sementes, carne, leite e produtos da agricultura familiar. Novos projetos de irrigação foram implantados, a fruticultura expandiu mercados, o turismo regional ganhou força, e inúmeras comunidades continuaram vivendo, produzindo e preservando seus territórios.

Isso não significa ignorar os problemas ambientais. Muito pelo contrário. Significa reconhecer que eles precisam ser tratados com base em evidências, estudos técnicos atualizados e políticas públicas responsáveis, e não por meio de previsões alarmistas que, muitas vezes, acabam gerando medo e comprometendo a imagem de toda uma região.

Sempre me perguntei quem se beneficiava de uma narrativa tão pessimista sobre o Norte de Minas.

Não cabe a mim afirmar que existia um único responsável ou uma única intenção por trás dessas publicações. Mas considero legítimo questionar se determinados discursos acabaram servindo, consciente ou inconscientemente, a interesses políticos, ideológicos, institucionais ou econômicos, influenciando a forma como o sertão foi visto pelo restante do país.

Quando uma região passa a ser conhecida apenas pela seca, pela pobreza e por previsões catastróficas, suas verdadeiras potencialidades ficam invisíveis. O turismo perde espaço, investidores recuam, produtores são estigmatizados e a autoestima da população é profundamente afetada.

Infelizmente, essa foi uma realidade que testemunhei diversas vezes.

Ao longo de quarenta anos caminhando pelo sertão, aprendi que o Norte de Minas não pode ser definido apenas pela seca.

Ele também é água quando ela é bem administrada.

É produção.

É biodiversidade.

É cultura.

É história.

É empreendedorismo.

É resistência.

É um povo trabalhador que aprendeu a conviver com as dificuldades sem perder a esperança.

Como jornalista, continuarei defendendo que qualquer debate sobre meio ambiente seja conduzido com responsabilidade, transparência e compromisso com os fatos. O sertão precisa de preservação ambiental, recuperação de áreas degradadas e gestão eficiente dos recursos naturais. Mas também precisa que sua imagem seja construída sobre a realidade, e não sobre previsões que o tempo não confirmou.

O Norte de Minas merece ser conhecido por aquilo que realmente é: uma região de enormes desafios, mas também de extraordinárias oportunidades. Um território rico em cultura, em biodiversidade e, principalmente, em gente que nunca desistiu de lutar pelo seu desenvolvimento.

O Norte de Minas merece ser conhecido por aquilo que realmente é: uma região de enormes desafios, mas também de extraordinárias oportunidades. Um território rico em cultura, em biodiversidade e, principalmente, em gente que nunca desistiu de lutar pelo seu desenvolvimento.

E essa sempre será a história que escolherei contar.

 

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