Por Aurélio Vidal – Jornalista e Pesquisador
Ontem, 15 de setembro, ao acompanhar mais um capítulo de enorme tensão envolvendo o Supremo Tribunal Federal, confesso que voltei meu pensamento para uma página muito mais antiga da história brasileira.
E quanto mais observo o Brasil de hoje, mais percebo que existem acontecimentos do passado que precisam ser revisitados sem medo, sem patrulhamento ideológico e, principalmente, sem a obrigação de repetir a versão que alguém determinou que devemos aceitar.
Eu sei que essa posição incomoda.
Mas vou dizer aquilo que penso.
Eu não renego Carlos Alberto Brilhante Ustra.
Na minha leitura da história, Ustra foi um militar que enxergou o avanço de organizações revolucionárias que pretendiam transformar profundamente o Brasil pela luta armada e que estavam dispostas a utilizar violência para alcançar seus objetivos.
Não estou ignorando os excessos, as violações e as tragédias daquele período. Elas precisam ser conhecidas e debatidas. Documentos oficiais, inclusive, registram graves violações cometidas pelo aparato repressivo do Estado e atribuem a Ustra responsabilidades no período em que comandou o DOI-CODI de São Paulo.
Mas também não aceito que se apague da história o outro lado.
Havia organizações que praticavam assaltos, sequestros, atentados e ações armadas contra o Estado. O Brasil vivia a Guerra Fria e uma disputa ideológica internacional extremamente radicalizada.
Portanto, quando alguém tenta contar aquela história como se existissem apenas mocinhos de um lado e bandidos do outro, eu desconfio da narrativa.
Eu não sou historiador de gabinete.
Sou jornalista.
Sou homem de estrada.
Passei décadas percorrendo o sertão, conversando com gente simples, trabalhadores, produtores, comerciantes, pequenos agricultores e famílias que muitas vezes enxergam o Estado não como uma instituição distante, mas como uma força que pode tanto proteger quanto esmagar.
E talvez seja justamente por isso que uma coisa me incomode profundamente:
quando o cidadão começa a ter medo do poder.
É isso que me faz olhar para o Brasil de hoje e lembrar de 1964.
Não estou dizendo que estamos vivendo exatamente a mesma ditadura militar.
Seria uma comparação historicamente simplista.
Mas estou dizendo que os mecanismos de concentração de poder e de restrição das liberdades precisam sempre ser observados com desconfiança pelo cidadão.
Ontem, diante do STF, eu senti novamente essa inquietação.
Independentemente de quem esteja certo ou errado no episódio, independentemente de nomes, partidos ou ideologias, existe uma pergunta que precisa continuar sendo feita:
Quem fiscaliza quem tem poder para fiscalizar todos nós?
Porque nenhuma autoridade deveria estar acima da crítica.
Nenhuma instituição deveria ser tratada como intocável.
E nenhum brasileiro deveria ser obrigado a escolher entre o silêncio e o medo.
É justamente aqui que faço a minha leitura sobre Ustra.
Eu não o vejo apenas pela narrativa de seus adversários.
Eu o vejo dentro de um contexto histórico de confronto político, ideológico e armado.
Para mim, ele representa uma geração de militares que acreditava estar enfrentando uma ameaça revolucionária concreta e que entendia que o Estado precisava reagir.
Essa é a minha interpretação.
E eu tenho o direito democrático de expressá-la.
Assim como quem discorda de mim tem o direito de me contestar.
Essa é, inclusive, a grande diferença entre uma sociedade livre e uma sociedade submetida ao pensamento único.
Eu não quero voltar a 1964.
Mas também não quero viver um Brasil em que determinadas opiniões possam ser criminalizadas simplesmente porque incomodam aqueles que ocupam posições de poder.
Não quero um país onde o cidadão tenha que pedir licença para discordar.
Não quero uma sociedade onde uma instituição possa concentrar tanto poder que o povo passe a ter receio até de questioná-la.
Isso me preocupa muito mais do que a discussão ideológica entre direita e esquerda.
Porque amanhã o poder pode estar nas mãos de quem pensa como você.
Mas depois de amanhã pode estar nas mãos de alguém que pensa exatamente o contrário.
E aí você descobrirá, talvez tarde demais, que as garantias que ajudou a retirar do seu adversário eram justamente aquelas que um dia poderiam proteger você.
Por isso, quando falo de Ustra, não estou pedindo que ninguém pense como eu.
Estou dizendo apenas que não aceito que a história seja contada por decreto.
Quero conhecer os crimes praticados pela esquerda armada.
Quero conhecer os crimes praticados pelo Estado.
Quero conhecer os mortos.
Quero conhecer os torturados.
Quero conhecer os sequestrados.
Quero conhecer os desaparecidos.
Quero conhecer também o contexto político que levou o Brasil àquele abismo.
Porque somente conhecendo tudo podemos formar uma opinião verdadeiramente livre.
E é exatamente isso que eu gostaria que acontecesse hoje.
Que o brasileiro não entregasse sua consciência para político nenhum.
Nem para ministro.
Nem para partido.
Nem para jornalista.
Nem para influencer.
Pense. Questione. Pesquise. Compare.
E, principalmente, não tenha medo de dizer aquilo em que acredita.
Eu, Aurélio Vidal, continuarei fazendo isso.
Sou cristão, sou temente a Deus e acredito que toda autoridade humana é passageira.
Já vi muita gente poderosa perder o poder.
Já vi muita promessa desaparecer.
Já vi muita gente humilde continuar de pé enquanto os poderosos mudavam de lado.
Por isso, minha lealdade não é a homens.
Minha lealdade é à liberdade, à verdade que consigo enxergar e ao povo que aprendi a conhecer nas estradas do sertão.
Se alguns me chamarem de conservador, de radical ou de qualquer outra coisa, isso faz parte do debate.
O que eu não aceito é ser impedido de pensar.
Porque, no dia em que o brasileiro tiver medo de pensar, talvez já não seja necessário colocar tanques nas ruas.
Basta controlar a palavra.
Basta controlar a narrativa.
Basta fazer o cidadão acreditar que questionar o poder é um crime.
E é justamente aí que precisamos prestar atenção.
O Brasil não pode trocar uma forma de autoritarismo por outra.
Ontem foi mais um alerta.
E eu, como jornalista, prefiro incomodar fazendo perguntas do que dormir tranquilo repetindo respostas prontas.
Porque a história não pertence aos vencedores.
A história pertence ao povo.
E o povo tem o direito de conhecê-la inteira.




