CORAÇÃO DE JESUS FOI O PALCO
Por Aurélio Vidal
Jornalista e Pesquisador
Ontem, quarta-feira, vivi mais um daqueles dias que reforçam a certeza de que o jornalismo de verdade nasce no chão da estrada, no contato direto com as pessoas, com a paisagem e com a história dos lugares.
Logo nas primeiras horas da viagem, deixei Montes Claros pela BR-365 e segui pela LMG-611 rumo a mais uma jornada pelo sertão norte-mineiro. Como de costume, os olhos atentos à paisagem, às pessoas, às histórias e às particularidades que fazem desta região um território tão singular.

Mas antes mesmo de chegar ao meu destino, deparei-me com uma cena que trouxe um sentimento de tristeza e reflexão. No meio da rodovia, jazia o corpo de uma raposa que provavelmente havia sido atropelada poucos instantes antes. Um animal belo, símbolo da fauna do nosso cerrado, que teve sua trajetória interrompida em meio ao asfalto.

A cena me fez pensar sobre os desafios da convivência entre o avanço das estradas e a preservação da vida silvestre. Quantas riquezas naturais ainda habitam este sertão e quantas delas permanecem invisíveis aos nossos olhos até que acontecimentos como esse nos façam lembrar de sua importância?
Segui viagem carregando essa reflexão até chegar à acolhedora cidade que abriga uma das mais tradicionais e conhecidas vaquejadas da região, um município que respira cultura, tradição e hospitalidade sertaneja.
Era apenas o começo de mais uma andança pelo sertão. E como sempre acontece, a estrada já começava a contar suas próprias histórias antes mesmo de eu alcançar o destino.
Sobre duas rodas, em uma viagem bate e volta repleta de descobertas, percorri parte do território de Coração de Jesus, desbravando caminhos do fascinante e futuro Circuito Turístico do Vale dos Dinossauros. Tive a honra de ser guiado pelo jovem Diu Brother, profundo conhecedor das particularidades daquela terra, que compartilhou comigo histórias, curiosidades e detalhes que dificilmente se encontram nos livros.

Estivemos em uma região de enorme relevância científica, bem próximo ao local onde foi encontrado um dos maiores e mais completos fósseis de dinossauro já descobertos no planeta. Um pedaço do sertão que guarda vestígios de um passado remoto e que ainda desperta a curiosidade de pesquisadores e admiradores da paleontologia.

Entre trilhas, paisagens surpreendentes e muita prosa, cheguei até a famosa Lagoa Feia. Apesar do nome, trata-se de uma gigantesca cacimba de rara beleza, cercada por formações naturais que conferem ao lugar uma atmosfera singular. Ali, em meio ao silêncio do sertão, senti uma energia difícil de explicar. Um mistério que parece brotar da própria terra, como se cada pedra, cada árvore e cada vereda guardassem segredos de séculos.

O que mais me chamou a atenção foi o contraste da paisagem. Embora seja uma região marcada pela aridez característica do sertão, o território preserva diversas lagoas e áreas úmidas que surgem quase como verdadeiros oásis em meio à vastidão da vegetação nativa. Trata-se de uma área ainda muito pouco explorada e divulgada, que certamente guarda inúmeras riquezas naturais, históricas, arqueológicas e culturais à espera de serem descobertas, estudadas e compartilhadas com o mundo.

Nem tudo, porém, foi tranquilidade. A aventura também reservou um susto. Em determinado momento, um cavalo atravessou bruscamente à nossa frente, provocando uma colisão que por pouco não me custou o dedo mindinho. Felizmente, os danos foram pequenos diante da grandiosidade da experiência vivida.

Voltei para casa com poeira na roupa, anotações na bagagem e a alma renovada. E com a convicção de que aquele território ainda tem muito a revelar. Em breve retornarei para ouvir mais histórias, colher novos depoimentos e produzir registros que farão parte de uma reportagem especial para a próxima edição do Jornal Agrosertão, dedicada às particularidades desse pequeno, acolhedor e surpreendente município.

Porque o sertão é assim: quanto mais a gente percorre seus caminhos, mais descobre que suas maiores riquezas estão escondidas nos lugares menos óbvios, aguardando apenas um olhar atento para serem reveladas.
E eu sigo estrada afora, movido pela curiosidade, pelo compromisso com a informação e pelo privilégio de contar as histórias da nossa terra da forma que elas merecem ser contadas.




