Há momentos em que a vida nos convida a diminuir o passo para que possamos ouvir melhor aquilo que realmente importa.
Por: Aurélio Vidal
Depois do susto que vivi na última terça-feira, quando precisei ser atendido na Santa Casa de Montes Claros, eu tinha diante de mim diversas opções para o fim de semana. Já recuperado, decidi fazer justamente o contrário do que normalmente faço nas minhas andanças pelo sertão: deixar um pouco de lado as grandes pautas, as longas viagens e a correria do cotidiano para viver algo mais leve. Talvez mais contemplativo. Quem sabe até um pouco mais romântico.

Foi assim, quase por acaso, que escolhi Mirabela como destino.

Terra dos meus amigos, como o eterno e grande prefeito Carlucinho, do professor Leonardo, do cuinegrafista Alexandre Nobre — o conhecido Xandão, da Inter TV — e também da tradicional família Marra Saco. Entre eles, meu xará, Seu Aurélio, e o grande responsável por essa agradável escapada: meu amigo Tóia, figura alegre, comunicativa e dona daquela hospitalidade que parece nascer junto com o povo sertanejo.

Depois de uma semana sem colocar a motocicleta nas estradas do Norte de Minas, desta vez troquei as duas rodas pelo conforto do carro. Ao lado da minha esposa, Luciene, seguimos rumo a Mirabela em busca de algo simples, verdadeiro e prazeroso: boa comida, boa música e um autêntico forró raiz para dançar sem pressa.
E a escolha não poderia ter sido mais acertada.

A Praça Bom Jesus que está repaginada e muito linda, foi tomada por famílias, visitantes e moradores que prestigiaram o II Festival Gastronômico – Raízes de Mirabela, evento realizado neste final de semana (18 e 19) e que se encerra hoje com diversas outras programações.

Mais do que uma programação festiva, o festival se consolidou como uma verdadeira celebração da identidade mirabelense.
Durante os dois dias, a gastronomia regional dividiu espaço com manifestações culturais, apresentações de folias, capoeira, encontro de motociclistas e carros antigos, além do tradicional Enduro Ouro do Cerrado. Houve ainda espaço infantil gratuito, permitindo que famílias inteiras aproveitassem a festa.

A programação teve início com uma aula-show gastronômica, seguida pelas apresentações dos foliões e do tradicional Arraiá de Contendas. À noite, a Banda Malow abriu a sequência de shows com um repertório que passeou por uma MPB carregada de nostalgia e por um pop-rock de excelente qualidade — ou, como costuma dizer meu amigo Fabinho Bocão, um “pop-rock apurado”. Na sequência, a animação tomou conta da Praça Bom Jesus com a dupla Jessica & Waldeny e, depois, com a cantora Tati Meira, que encerraram a noite embalando o público em um clima de confraternização capaz de aquecer até mesmo o frio típico das noites de inverno do sertão.

Mirabela, conhecida nacionalmente por sua tradicional carne de sol, mostrou que sua riqueza vai muito além da gastronomia.
A pequena cidade, localizada a pouco mais de 60 quilômetros de Montes Claros, preserva aquele charme das antigas cidades do interior, onde ainda se conhece o vizinho pelo nome, as conversas acontecem nas calçadas e as histórias passam de geração em geração.
Durante muitos anos, Mirabela foi apenas um município de passagem para quem seguia rumo a outras regiões do sertão. Hoje, no entanto, escreve uma nova história, consolidando-se como referência em cultura, turismo e gastronomia, sem abrir mão da simplicidade e da hospitalidade que sempre marcaram seu povo.
Como acontece em quase toda boa festa do interior, também reencontrei muitos amigos. Entre eles, o secretário-executivo da AMAMS, Fabiano Lopes, acompanhado de sua esposa Susana, cuja família é tradicional de Mirabela.

Enquanto eu reencontrava velhos conhecidos, Lú, minha companheira de mais de 40 anos, fazia o que mais gosta: dançar. Havia muito tempo que ela não aproveitava uma noite inteira ao som do legítimo forró. Confesso que vê-la sorrindo entre um passo e outro tornou aquela viagem ainda mais especial.

Retornamos para Montes Claros já por volta da uma hora da madrugada.
Voltamos cansados, é verdade. Mas era aquele cansaço bom, que somente os momentos vividos com leveza conseguem proporcionar.
Em tempos em que tantas notícias carregam conflitos, denúncias e preocupações, descobrir que o sertão também sabe celebrar sua cultura, preservar suas raízes e transformar sabores em encontros renova nossa esperança.
Às vezes, tudo o que precisamos é percorrer poucos quilômetros para perceber que as maiores riquezas não estão na pressa das grandes cidades, mas no abraço sincero de um povo, no cheiro da comida feita com carinho, no compasso de um forró bem tocado e na capacidade que o interior tem de nos lembrar quem realmente somos.
E Mirabela fez exatamente isso.
Por uma noite, o sertão não apenas serviu comida. Serviu memórias.




