Por Aurélio Vidal – Jornalista
Sempre que falo sobre o Projeto Jaíba, minha memória faz questão de me levar cerca de quarenta anos atrás.
Naquela época, eu vivia um dos períodos mais intensos da minha juventude, trabalhando como mascate e percorrendo centenas de quilômetros pelas estradas do Norte de Minas. Eram tempos em que praticamente toda aquela região era cortada por longas estradas de terra batida, onde a poeira fazia parte da paisagem e das viagens. Foi assim que conheci Mucambinho, Área F e tantas outras Áreas que, mais tarde, se tornariam parte da história de um dos maiores projetos públicos de irrigação da América Latina.
Era impossível não se impressionar.
Por onde eu passava, via um verdadeiro formigueiro humano. Caminhões carregados de materiais, tratores abrindo caminhos, máquinas pesadas moldando o solo, técnicos, produtores, fornecedores e funcionários de empresas estatais circulando em um vai e vem constante. O sertão parecia respirar desenvolvimento.
Grandes áreas de vegetação davam lugar a uma gigantesca estrutura agrícola que começava a tomar forma diante dos meus olhos. Naquele instante, parecia que o impossível finalmente estava acontecendo. Era difícil imaginar que aquela terra, durante séculos marcada pela seca, pudesse abrigar uma obra de tamanha dimensão.
Alguns anos depois, ao retornar por aquelas bandas, outra imagem ficou gravada para sempre em minha memória.
Em uma enorme área, margeando a estrada da balsa que dava acesso e bem ao lado de Mucambinho, podíamos notar dezenas de máquinas gigantescas, tratores, escavadeiras e equipamentos que haviam sido utilizados durante a implantação do projeto. Muitos estavam abandonados, enferrujando sob o sol escaldante do sertão, onde a vegetação seguia crescendo e as abraçando. Pareciam esquecidos pelo tempo. A cena lembrava um verdadeiro cemitério de grandes robôs, monumentos silenciosos de uma obra que, embora monumental, ainda carregava etapas inacabadas e promessas interrompidas.
Hoje, décadas depois, retorno novamente ao Jaíba. Mas agora não mais como mascate. Retorno como jornalista, com a missão de ouvir pessoas, compreender conflitos e tentar interpretar aquilo que os números nem sempre conseguem revelar.
É impossível negar que o Projeto Jaíba transformou profundamente a economia regional.
A irrigação revolucionou a produção agrícola. Frutas, hortaliças e diversas outras culturas passaram a movimentar milhões de reais todos os anos. Canais de irrigação, aquedutos, barragens, estações de bombeamento, pivôs centrais e toda uma sofisticada infraestrutura fizeram surgir um novo cenário produtivo no Norte de Minas.
Sob o aspecto econômico, o projeto cumpriu boa parte de sua missão.
Mas, quando observo a realidade social, percebo que essa transformação não ocorreu com a mesma intensidade.
A base da agricultura daquela região continua sendo formada, em grande medida, por pequenos agricultores familiares. Homens e mulheres que nunca tiveram capital suficiente para acessar plenamente toda aquela estrutura concebida pelo projeto. Muitos permaneceram à margem do desenvolvimento, dependendo quase exclusivamente da força do próprio trabalho para sobreviver.
Talvez o maior símbolo dessa contradição esteja justamente nas Áreas 3 e 4 do Projeto Jaíba.
Essas etapas jamais receberam todos os investimentos estruturais originalmente previstos. Décadas se passaram sem que fossem plenamente concluídas. Enquanto o poder público adiava soluções, centenas de famílias faziam aquilo que sempre caracterizou o povo sertanejo: resistiam.
Construíram suas casas, abriram pequenas lavouras, criaram seus filhos, produziram alimentos e fizeram da terra seu sustento. Não porque encontraram todas as condições ideais, mas porque nunca tiveram outra alternativa além de trabalhar.
Agora, quando finalmente surge uma proposta para estruturar definitivamente essas áreas, essas mesmas famílias convivem com o medo de perder aquilo que construíram durante décadas.
É exatamente nesse momento que precisamos refletir sobre as grandes contradições do sertão brasileiro.
Não basta discutir obras de engenharia ou regularização fundiária. É preciso compreender como o capital, o Estado e a ocupação desse território produziram uma realidade em que o desenvolvimento econômico avançou muito mais rápido do que a inclusão social.
O Projeto Jaíba jamais poderá ser avaliado apenas pelos hectares irrigados ou pelos recordes de produção agrícola.
Sua verdadeira grandeza também precisa ser medida pela forma como trata aqueles que permaneceram invisíveis durante boa parte dessa história.
Corrigir um erro histórico não pode significar criar uma nova injustiça.
Se durante décadas essas famílias aguardaram investimentos públicos que nunca chegaram, agora não faz sentido que justamente elas sejam retiradas para que o projeto finalmente seja concluído.
A justiça exige outro caminho.
É preciso garantir a permanência dessas famílias na terra, promover a regularização documental de suas propriedades e assegurar que os investimentos finalmente cheguem para concluir aquilo que ficou inacabado.
Mais do que finalizar uma obra pública, trata-se de reparar uma dívida histórica.
Porque desenvolvimento verdadeiro não se mede apenas pela quantidade de riqueza produzida.
Mede-se, sobretudo, pela capacidade de incluir, proteger e reconhecer aqueles que ajudaram a construir essa história com as próprias mãos.
Essa talvez seja a maior reflexão que o Projeto Jaíba nos impõe.
As máquinas que um dia transformaram a paisagem do sertão envelheceram, muitas delas ficaram para trás, formando aquele silencioso “cemitério de gigantes” que ainda permanece vivo em minha memória. Mas as pessoas continuam ali.
E talvez sejam justamente elas o patrimônio mais valioso que esse projeto jamais produziu.




