Por: Aurélio Vidal
Há lugares onde basta olhar. Outros exigem que a gente enxergue.
Foi exatamente isso que aconteceu quando percorri, mais uma vez, a rodovia que liga Jaíba ao histórico município de Matias Cardoso. Já na região de Nova Cachoeirinha, algo chamou minha atenção. Não resisti. Encostei o carro, preparei o drone e o coloquei no ar.
À medida que as imagens surgiam na tela, elas contavam uma história que dificilmente poderia ser traduzida apenas por números, discursos ou relatórios técnicos.
De um lado da estrada, corria o canal que leva as águas do Rio São Francisco. São as águas que transformaram as áreas 1 e 2 do Projeto Jaíba em uma das maiores referências da agricultura irrigada do Brasil. Ali, a água representa prosperidade, produção, emprego, renda e esperança.

Mas bastou o drone avançar alguns metros para revelar um cenário completamente diferente.
O canal simplesmente termina.
Como se alguém tivesse interrompido um sonho no meio do caminho.
A partir dali, começam as áreas 3 e 4. O concreto desaparece. A água deixa de existir. O verde intenso das plantações dá lugar aos tons acinzentados da caatinga castigada pelo sol. A paisagem muda, mas o desejo de produzir continua o mesmo.
Mesmo diante das dificuldades, centenas de famílias se recusaram a abandonar aquela terra. Com recursos próprios, abriram poços artesianos, instalaram pequenas estruturas de irrigação e, à força de muito trabalho, conseguiram manter vivas pequenas lavouras que hoje parecem verdadeiros oásis em meio ao sertão seco.
Quem observa aquelas pequenas manchas verdes do alto talvez veja apenas plantações.
Eu vejo resistência.
Vejo homens e mulheres que decidiram enfrentar a seca sem desistir dos seus sonhos.
Vejo pais e mães que transformaram o suor em água quando a água nunca chegou.
Agora, porém, uma nova preocupação ocupa o pensamento dessas famílias. Com a proposta de reestruturação das áreas 3 e 4 do Projeto Jaíba, muitos produtores relatam o receio de perder as propriedades que construíram ao longo de décadas. Eles afirmam temer indenizações que não reflitam o valor dos investimentos realizados, do trabalho acumulado e da própria história construída naquele lugar.
Durante minhas andanças, ouvi algo que se repetiu em praticamente todas as conversas.
Eles não querem abandonar suas terras.
Querem apenas aquilo que sempre lhes foi prometido: que as águas do Velho Chico finalmente atravessem os quilômetros que ainda faltam e alcancem suas propriedades.
É um pedido simples.
É um pedido justo.
A diferença entre um lado e outro da rodovia mede apenas alguns metros. Mas a distância entre quem recebeu a água e quem continua esperando por ela parece interminável.
Meu drone registrou mais do que imagens.
Registrou um retrato do Brasil.
De um lado, uma política pública que deu certo e mudou a vida de milhares de famílias. Do outro, um projeto interrompido, sonhos adiados e produtores que seguem acreditando que ainda vale a pena permanecer na terra.
Enquanto muitos enxergam apenas um canal de concreto, eu vejo um divisor de destinos.
Porque a água não irriga apenas o solo.
Ela irriga a dignidade, fortalece a economia, fixa o homem no campo e alimenta a esperança.
Foi por isso que fiz esse registro.
Não para apontar culpados.
Mas para lembrar que, às vezes, bastam poucos quilômetros para separar o desenvolvimento do abandono.
E que nenhuma obra estará verdadeiramente concluída enquanto houver famílias olhando para o canal terminado e imaginando quando, enfim, a água também chegará ao outro lado.




