Por Aurélio Vidal
Nas minhas constantes andanças pelo sertão norte-mineiro, tenho aprendido que muitas das maiores riquezas deste território permanecem escondidas aos olhos da maioria das pessoas. Algumas delas estão guardadas nas serras, outras nos rios, nas histórias dos mais velhos e nas tradições transmitidas de geração em geração.
Mas existe uma riqueza que corre silenciosamente pelos caminhos de terra vermelha do sertão e que ajudou a construir uma das mais importantes identidades culturais de Minas Gerais: a cachaça artesanal.

Quando se fala em cachaça de qualidade, inevitavelmente surge o nome de Salinas, cidade reconhecida nacional e internacionalmente como a Capital Mundial da Cachaça. E o título não veio por acaso. Ali nasceu uma tradição que atravessou décadas e colocou o norte de Minas no mapa dos grandes apreciadores da bebida mais brasileira de todas.
Salinas é terra de gente acolhedora, receptiva e orgulhosa de sua história. É também o berço de marcas lendárias que conquistaram reconhecimento dentro e fora do país. Entre elas, a inesquecível Havana, criada pelo saudoso produtor Anísio Santiago, considerado por muitos o homem que elevou a cachaça artesanal mineira ao mais alto patamar de qualidade e prestígio.

Foi graças à visão, à dedicação e ao rigor de produtores como Anísio Santiago que a aguardente artesanal deixou de ser vista apenas como uma bebida popular para se transformar em um produto de excelência, respeitado por especialistas e premiado em concursos internacionais.
Hoje, o município abriga dezenas de alambiques e realiza anualmente o tradicional Festival Mundial da Cachaça, atraindo milhares de visitantes interessados em conhecer a cultura, os sabores e os aromas que fizeram fama na região.

Mas durante minhas viagens pelo sertão, descobri uma realidade que pouca gente conhece.
Grande parte da matéria-prima que alimenta essa poderosa cadeia produtiva não nasce necessariamente em Salinas.
Ela nasce, cresce e ganha vida nos extensos canaviais espalhados pelo território do Alto Rio Pardo.
É em municípios como Rio Pardo de Minas, Taiobeiras, Novorizonte e Indaiabira que se concentra uma das maiores produções de cana-de-açúcar e de cachaça artesanal de toda a região norte-mineira.

São centenas de hectares cultivados e inúmeros alambiques espalhados pelas comunidades rurais, onde o saber tradicional continua vivo. Homens e mulheres acordam antes do sol nascer para cuidar da lavoura, acompanhar a moagem da cana, monitorar a fermentação e conduzir a destilação com a mesma paciência dos antigos mestres alambiqueiros.
Ali, o tempo parece seguir outro ritmo.
O cheiro adocicado da garapa recém-moída mistura-se ao aroma da lenha queimando sob os tachos. O vapor que sai dos alambiques anuncia que mais uma safra está sendo transformada em tradição líquida.

Boa parte dessa produção segue para Salinas, onde muitas vezes é envelhecida em tonéis de madeira, refinada segundo critérios rigorosos de qualidade e posteriormente engarrafada sob marcas já consagradas no mercado nacional.
Por isso, quando admiramos uma grande cachaça produzida na região, é importante compreender que existe uma extensa rede de trabalhadores rurais, produtores familiares e pequenos alambiqueiros espalhados pelo Alto Rio Pardo que também ajudam a construir essa história.
Sem os canaviais de Rio Pardo de Minas, Taiobeiras, Novorizonte e Indaiabira, parte significativa dessa cadeia produtiva simplesmente não existiria da forma como a conhecemos hoje.
Nos últimos dez anos, tenho percorrido estradas, visitado comunidades rurais, conversado com produtores e acompanhado de perto as inúmeras particularidades que compõem o fascinante universo da cachaça artesanal norte-mineira. Mais do que registrar histórias, tenho buscado compreender como esse patrimônio cultural pode se transformar também em ferramenta de desenvolvimento regional. Nesse período, venho amadurecendo a proposta de criação da Rota da Cachaça – Circuito Turístico do Norte de Minas, um projeto capaz de integrar municípios produtores, valorizar os alambiques tradicionais, fortalecer a agricultura familiar e atrair visitantes interessados em vivenciar a autêntica cultura sertaneja. Nessa caminhada investigativa, estive inclusive em Januária, uma das mais tradicionais referências da aguardente mineira, onde procurei conhecer melhor a história, os processos produtivos e a contribuição dos antigos mestres alambiqueiros para a construção da identidade da cachaça regional. Cada visita reforça uma convicção: a cachaça não é apenas um produto econômico. Ela representa memória, tradição, conhecimento popular e uma das mais legítimas expressões da cultura do sertão mineiro.
E há outro aspecto que merece reflexão.
Antes mesmo de Salinas se consolidar como referência nacional, a cidade de Januária já era amplamente reconhecida pela qualidade de suas aguardentes. Às margens do Rio São Francisco, produtores januários construíram uma tradição secular que ajudou a fortalecer a reputação da cachaça norte-mineira em todo o Brasil.
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]São capítulos diferentes de uma mesma história.
Uma história escrita pela força do homem sertanejo, pela fertilidade da terra, pela abundância da cana-de-açúcar e pela sabedoria acumulada ao longo de gerações.
O que talvez ainda falte é transformar todo esse patrimônio em um produto turístico mais estruturado.
Embora algumas propriedades rurais já recebam visitantes mediante agendamento, grande parte dos alambiques ainda não está preparada para acolher o turista. Existe um enorme potencial para a criação de rotas da cachaça, experiências gastronômicas, visitas guiadas, degustações e vivências culturais capazes de fortalecer a economia regional.
O turista que chega ao norte de Minas busca autenticidade. E autenticidade é justamente o que não falta por aqui.
Em cada fazenda, em cada engenho, em cada alambique escondido entre serras e veredas, existe uma história esperando para ser contada.
E foi percorrendo essas estradas do sertão que compreendi uma verdade simples: Salinas tornou-se a vitrine mundial da cachaça artesanal, mas parte importante das raízes dessa grandiosa tradição está fincada nas terras férteis do Alto Rio Pardo.
Talvez seja hora de o Brasil conhecer melhor esse protagonismo silencioso.
Porque por trás de cada gole de uma boa cachaça norte-mineira existe muito mais do que cana, madeira e tempo.
Existe território.
Existe cultura.
Existe identidade.
Existe sertão.




