ENTRE A SECA E O EXCESSO: QUEM VAI PLANEJAR O FUTURO DO NORTE DE MINAS?

Se antes a angústia era a ausência de água, hoje é o excesso. Alagamentos em cidades como Porteirinha, Espinosa, Salinas e Juramento, famílias retiradas de suas casas, extravasamento de barragens, ruas submersas, prejuízos materiais e emocionais. A pergunta que ecoa é inevitável: estamos preparados?

Por Aurélio Vidal

Eu percorro o Norte de Minas há anos. Já caminhei por estradas rachadas pela estiagem, já ouvi o lamento de produtores rurais vendo o gado emagrecer por falta d’água, já relatei o drama de comunidades inteiras dependendo de carro-pipa. A crise hídrica sempre foi nossa velha conhecida — e, sejamos honestos, nunca foi efetivamente resolvida.

Agora, a preocupação parece inversa.

Se antes a angústia era a ausência de água, hoje é o excesso. Alagamentos em cidades como Porteirinha, Espinosa, Salinas, Rio Pardo de Minas e Juramento, famílias retiradas de suas casas, extravasamento de barragens, ruas submersas, prejuízos materiais e emocionais. A pergunta que ecoa é inevitável: estamos preparados?

Se antes a angústia era a ausência de água, hoje é o excesso. Alagamentos em cidades como Porteirinha, Espinosa, Salinas, Rio Pardo de Minas e Juramento, famílias retiradas de suas casas, extravasamento de barragens, ruas submersas, prejuízos materiais e emocionais. A pergunta que ecoa é inevitável: estamos preparados?

No dia 4 de dezembro de 2023, o Governo de Minas anunciou o primeiro Plano de Preparação e Resposta ao Rompimento de Barragens do Brasil, coordenado pela Secretaria de Estado de Saúde. Um documento técnico, estruturado, que organiza ações estaduais e municipais diante de emergências em saúde pública causadas por desastres dessa natureza. Minas carrega cicatrizes profundas de tragédias como Mariana e Brumadinho — episódios que jamais serão apagados da memória coletiva.

Eu percorro o Norte de Minas há anos. Já caminhei por estradas rachadas pela estiagem, já ouvi o lamento de produtores rurais vendo o gado emagrecer por falta d’água, já relatei o drama de comunidades inteiras dependendo de carro-pipa. A crise hídrica sempre foi nossa velha conhecida — e, sejamos honestos, nunca foi efetivamente resolvida.

Agora, nos primeiros meses de 2026, a realidade bateu à porta do Norte de Minas. A barragem de Lages, em Porteirinha, extravasou devido ao grande volume de chuvas. Vinte e cinco famílias foram retiradas preventivamente. O Governo afirmou que a situação estava controlada, mas sob atenção permanente.

Agora, nos primeiros meses de 2026, a realidade bateu à porta do Norte de Minas. A barragem de Lages, em Porteirinha, extravasou devido ao grande volume de chuvas. Vinte e cinco famílias foram retiradas preventivamente. O Governo afirmou que a situação estava controlada, mas sob atenção permanente.

E eu pergunto: controlada até quando?

O papel dos prefeitos e deputados: discurso ou planejamento?

É preciso ir além da nota oficial e do vídeo institucional. O que, de fato, pode ser viabilizado por prefeitos, deputados estaduais e federais, associações microrregionais e consórcios intermunicipais que se dizem representantes do Norte de Minas?

Planejamento preventivo não pode ser sazonal. Não pode surgir apenas quando a água invade as casas ou quando a seca volta a castigar.

Algumas ações concretas são possíveis — e urgentes:

Mapeamento técnico de áreas de risco, com atualização permanente.

Plano Diretor com foco em drenagem urbana eficiente.

Fiscalização rigorosa de barragens de pequeno e médio porte, muitas vezes invisíveis ao debate público.

Captação de recursos federais e estaduais para obras estruturantes, e não apenas paliativas.

Consórcios regionais fortalecidos, com equipes técnicas permanentes e não apenas administrativas.

O Norte de Minas precisa parar de reagir e começar a antecipar.

E a população? E a iniciativa privada?

Não podemos terceirizar toda a responsabilidade ao poder público. A população também precisa ocupar espaços.

Como jornalista, percebo que audiências públicas costumam ser esvaziadas. Conselhos municipais de meio ambiente e defesa civil raramente contam com participação ativa da sociedade. Onde estão as associações comerciais? As cooperativas? As universidades? As igrejas? As entidades de classe?

A elaboração de planos preventivos poderia incluir:

Fóruns regionais participativos, com transmissão pública e prestação de contas.

Aplicativos ou canais digitais de alerta e monitoramento comunitário.

Parcerias com empresas locais para financiamento de sistemas de drenagem, reflorestamento e proteção de nascentes.

Programas educativos nas escolas, formando uma geração consciente sobre ocupação do solo e preservação ambiental.

Gestão de risco não é apenas técnica. É cultural.

Da seca ao alagamento: a contradição do abandono

Durante décadas, o Norte de Minas conviveu com o discurso da “indústria da seca”. Recursos eram anunciados, carros-pipa circulavam, decretos de emergência se repetiam. A estiagem virou rotina administrativa.

Hoje, enfrentamos o paradoxo: chuvas intensas provocando transtornos estruturais que revelam a fragilidade urbana de nossas cidades.

Isso não é apenas um fenômeno climático. É também consequência de:

Crescimento urbano desordenado;

Assoreamento de rios;

Supressão de matas ciliares;

Falta de manutenção em sistemas de drenagem;

Planejamento inexistente ou ineficiente.

E, novamente, a pergunta incômoda: quem responde por isso?

Norte de Minas: protagonista ou refém?

O anúncio de planos estaduais é importante. Mas plano no papel não segura enxurrada.

O que eu defendo — e questiono — é se nossos representantes regionais estão preparados para transformar diretrizes em obras, estudos em ações, discursos em resultados.

O Norte de Minas precisa deixar de ser apenas manchete de tragédia ou decreto de emergência. Precisa ser protagonista da própria organização territorial.

Eu sigo percorrendo essas estradas. Antes, cobria a poeira levantada pela seca. Agora, vejo a lama deixada pelas enchentes.

O cenário mudou. O desafio também.

Mas a pergunta permanece a mesma: vamos continuar reagindo às crises ou finalmente aprenderemos a planejar o futuro?

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