DO NORTE DE MINAS AO MUNDO: QUANDO O POVO APERTA O CINTO E O SISTEMA VIVE DE APLAUSOS PAGOS

Escrevo estas linhas não apenas como jornalista e pesquisador, mas como alguém que vive, atua e resiste no Norte de Minas Gerais — uma região historicamente esquecida pelo sistema, abandonada em investimentos estruturantes, carente de infraestrutura hospitalar digna e tratada como periferia política de um país que se diz democrático. Daqui, onde sempre fiz questão de fazer a minha parte na cobrança pela preservação dos direitos constitucionais e pela liberdade, a indignação não é discurso: é vivência.

Por Aurélio Vidal – Jornalista

Escrevo estas linhas não apenas como jornalista e pesquisador, mas como alguém que vive, atua e resiste no Norte de Minas Gerais — uma região historicamente esquecida pelo sistema, abandonada em investimentos estruturantes, carente de infraestrutura hospitalar digna e tratada como periferia política de um país que se diz democrático. Daqui, onde sempre fiz questão de fazer a minha parte na cobrança pela preservação dos direitos constitucionais e pela liberdade, a indignação não é discurso: é vivência.

Volta e meia me pego lembrando das falas inflamadas de artistas que, em 2022, se colocaram como paladinos da moral e da consciência social, atacando duramente o então presidente Jair Bolsonaro. Lembro bem de discursos da atriz Taís Araújo, de manifestações indignadas sobre queimadas na Amazônia e de uma classe artística que se apresentava como voz dos oprimidos. Curiosamente, hoje o silêncio é ensurdecedor.

Mais recentemente, assisti ao ator Wagner Moura — beneficiado, segundo dados amplamente divulgados, por cerca de R$ 7,5 milhões em recursos públicos para um de seus filmes — usar um palco internacional, como o Globo de Ouro, para tentar desqualificar Bolsonaro mais uma vez. Nada contra opinião política. O problema é a hipocrisia institucionalizada. Afinal, enquanto a classe artística recebe aportes bilionários via leis de incentivo, fundos e editais, professores — muitos deles militantes que estiveram na linha de frente da campanha deste governo — seguem desvalorizados, com salários corroídos e promessas vazias.


Mais recentemente, assisti ao ator Wagner Moura — beneficiado, segundo dados amplamente divulgados, por cerca de R$ 7,5 milhões em recursos públicos para um de seus filmes — usar um palco internacional, como o Globo de Ouro, para tentar desqualificar Bolsonaro mais uma vez. Nada contra opinião política. O problema é a hipocrisia institucionalizada. Afinal, enquanto a classe artística recebe aportes bilionários via leis de incentivo, fundos e editais, professores — muitos deles militantes que estiveram na linha de frente da campanha deste governo — seguem desvalorizados, com salários corroídos e promessas vazias.

Hoje, as queimadas batem recordes. Os rombos nos cofres públicos também. Escândalos, desvios e má gestão se acumulam sob o olhar complacente de um sistema judicial que, para muitos brasileiros, parece mais empenhado em oprimir o povo e silenciar opositores por “crime de opinião” do que em garantir isonomia. Enquanto isso, figuras poderosas do mercado financeiro, como Daniel Vorcaro, do Banco Master, transitam livremente em meio a denúncias e controvérsias, amparadas por estruturas jurídicas caríssimas — inclusive com a contratação de advogada que, coincidentemente, é esposa de ministro do STF. Já o cidadão comum, especialmente o mais simples, é tratado com mão pesada apenas por questionar o sistema ou participar de manifestações pacíficas.

Do Norte de Minas, onde faltam leitos hospitalares, médicos especialistas e obras estruturantes básicas, a sensação é de que o Estado só chega para cobrar imposto, multar ou reprimir. E cobrar imposto, aliás, virou obsessão. O arrocho na carga tributária avança sem piedade, sufocando quem produz, trabalha e empreende. Soma-se a isso o escandaloso rombo no INSS, que ameaça aposentadorias e expõe mais uma vez a irresponsabilidade com o dinheiro do povo.

A pergunta que não quer calar é: até quando a população brasileira vai aceitar esse tipo de governo?

O mundo começa a dar sinais claros de esgotamento. No Nepal, em setembro de 2025, uma onda de protestos liderada pela Geração Z explodiu após o governo comunista bloquear redes sociais como Facebook, Instagram e YouTube. O resultado foi a maior crise política do país em anos, culminando na renúncia do primeiro-ministro. Em Madagascar, em outubro de 2025, protestos inicialmente motivados pela falta de água e energia evoluíram para uma revolta contra a corrupção e a ausência de serviços básicos, forçando o presidente a deixar o país.

No Irã, desde 2022 e novamente no início de 2026, jovens desafiaram a teocracia em protestos massivos, reprimidos com violência extrema e milhares de mortes, segundo organizações internacionais. No Sri Lanka, o movimento “Aragalaya” mostrou a força da juventude contra a crise econômica e a corrupção. No Quênia, em 2024, manifestações contra políticas do governo terminaram em confrontos, mortes e feridos. Casos semelhantes também surgiram no Marrocos, na Indonésia e em outras nações.

Todos esses episódios revelam uma tendência global: a paciência acabou. Movimentos impulsionados pela Geração Z, organizados e amplificados pelas redes sociais, escancaram a insatisfação com a corrupção, a má gestão, a censura e o distanciamento brutal entre governos e governados.

Aqui do sertão norte-mineiro, onde o abandono é regra e a resistência virou identidade, sigo fazendo o que sempre fiz: questionar, cobrar e incomodar. Porque a história mostra que nenhum sistema injusto cai por vontade própria. E quando o povo desperta, não há censura, propaganda ou dinheiro público que consiga conter.

Veja Mais

Artigos Relacionados:

Centro de Grão Mogol, com a igreja e a praça da cidade.

Grão Mogol: a cidade das pedras e das águas encanta com sua história e belezas naturais

Localizada na parte mais alta da Serra Geral, no Norte de Minas Gerais, Grão Mogol é um destino que transborda belezas naturais, biodiversidade e uma rica herança ligada aos diamantes e ao período colonial dos séculos XVI e XIX. A história pulsante dessa cidade pode ser encontrada nas ruas e vielas, cuja pavimentação foi erguida com a mão de obra dos escravizados. Nas trilhas e

Durante décadas percorri o Norte de Minas. Primeiro como mascate, conhecendo de perto o sertão e seu povo. Depois, há mais de vinte anos, como jornalista e pesquisador, registrando sua história, suas riquezas, seus desafios e suas potencialidades. Foi justamente por conhecer essa região palmo a palmo que sempre me causou estranheza uma narrativa que, durante muitos anos, ganhou espaço em jornais, revistas e organizações não governamentais: a de que o Norte de Minas se transformaria em um deserto em apenas vinte anos.

O NORTE DE MINAS NÃO VIROU DESERTO. QUEM GANHOU COM ESSA NARRATIVA?

Por Aurélio Vidal Durante décadas percorri o Norte de Minas. Primeiro como mascate, conhecendo de perto o sertão e seu povo. Depois, há mais de vinte anos, como jornalista e pesquisador, registrando sua história, suas riquezas, seus desafios e suas potencialidades. Foi justamente por conhecer essa região palmo a palmo que sempre me causou estranheza uma narrativa que, durante muitos anos, ganhou espaço em jornais,

Durante os dois dias, a gastronomia regional dividiu espaço com manifestações culturais, apresentações de folias, capoeira, encontro de motociclistas e carros antigos, além do tradicional Enduro Ouro do Cerrado. Houve ainda espaço infantil gratuito, permitindo que famílias inteiras aproveitassem a festa.

QUANDO O SERTÃO COZINHA MEMÓRIAS: UMA NOITE DE SABORES, FORRÓ E REENCONTROS EM MIRABELA

Há momentos em que a vida nos convida a diminuir o passo para que possamos ouvir melhor aquilo que realmente importa. Por: Aurélio Vidal Depois do susto que vivi na última terça-feira, quando precisei ser atendido na Santa Casa de Montes Claros, eu tinha diante de mim diversas opções para o fim de semana. Já recuperado, decidi fazer justamente o contrário do que normalmente faço

A Barragem de Jequitaí tornou-se um símbolo de uma realidade que o povo do Norte de Minas conhece bem: projetos grandiosos que frequentemente avançam lentamente, sofrem interrupções e deixam para trás prejuízos materiais, expectativas frustradas e um enorme custo para a sociedade.

BARRAGEM DE JEQUITAÍ: O RETRATO DE MEIO SÉCULO DE PROMESSAS E ABANDONO

Por: Aurélio Vidal As imagens falam por si. No lugar onde deveria existir uma das mais importantes obras de infraestrutura hídrica do Norte de Minas, o que se vê é um cenário de abandono: equipamentos esquecidos, toneladas de ferragens expostas ao tempo, estruturas deterioradas e um patrimônio público que, ano após ano, perde valor diante da completa falta de utilização. Em determinados pontos, a impressão

É preciso garantir a permanência dessas famílias na terra, promover a regularização documental de suas propriedades e assegurar que os investimentos finalmente cheguem para concluir aquilo que ficou inacabado.

JAÍBA: AS CONTRADIÇÕES DE UM SONHO CHAMADO DESENVOLVIMENTO

Por Aurélio Vidal – Jornalista Sempre que falo sobre o Projeto Jaíba, minha memória faz questão de me levar cerca de quarenta anos atrás. Naquela época, eu vivia um dos períodos mais intensos da minha juventude, trabalhando como mascate e percorrendo centenas de quilômetros pelas estradas do Norte de Minas. Eram tempos em que praticamente toda aquela região era cortada por longas estradas de terra

Centro de Grão Mogol, com a igreja e a praça da cidade.

Grão Mogol: a cidade das pedras e das águas encanta com sua história e belezas naturais

Localizada na parte mais alta da Serra Geral, no Norte de Minas Gerais, Grão Mogol é um destino que transborda belezas naturais, biodiversidade e uma rica herança ligada aos diamantes e ao período colonial dos séculos XVI e XIX. A história pulsante dessa cidade pode ser encontrada nas ruas e vielas, cuja pavimentação foi erguida com a mão de obra dos escravizados. Nas trilhas e

Durante décadas percorri o Norte de Minas. Primeiro como mascate, conhecendo de perto o sertão e seu povo. Depois, há mais de vinte anos, como jornalista e pesquisador, registrando sua história, suas riquezas, seus desafios e suas potencialidades. Foi justamente por conhecer essa região palmo a palmo que sempre me causou estranheza uma narrativa que, durante muitos anos, ganhou espaço em jornais, revistas e organizações não governamentais: a de que o Norte de Minas se transformaria em um deserto em apenas vinte anos.

O NORTE DE MINAS NÃO VIROU DESERTO. QUEM GANHOU COM ESSA NARRATIVA?

Por Aurélio Vidal Durante décadas percorri o Norte de Minas. Primeiro como mascate, conhecendo de perto o sertão e seu povo. Depois, há mais de vinte anos, como jornalista e pesquisador, registrando sua história, suas riquezas, seus desafios e suas potencialidades. Foi justamente por conhecer essa região palmo a palmo que sempre me causou estranheza uma narrativa que, durante muitos anos, ganhou espaço em jornais,

Durante os dois dias, a gastronomia regional dividiu espaço com manifestações culturais, apresentações de folias, capoeira, encontro de motociclistas e carros antigos, além do tradicional Enduro Ouro do Cerrado. Houve ainda espaço infantil gratuito, permitindo que famílias inteiras aproveitassem a festa.

QUANDO O SERTÃO COZINHA MEMÓRIAS: UMA NOITE DE SABORES, FORRÓ E REENCONTROS EM MIRABELA

Há momentos em que a vida nos convida a diminuir o passo para que possamos ouvir melhor aquilo que realmente importa. Por: Aurélio Vidal Depois do susto que vivi na última terça-feira, quando precisei ser atendido na Santa Casa de Montes Claros, eu tinha diante de mim diversas opções para o fim de semana. Já recuperado, decidi fazer justamente o contrário do que normalmente faço

A Barragem de Jequitaí tornou-se um símbolo de uma realidade que o povo do Norte de Minas conhece bem: projetos grandiosos que frequentemente avançam lentamente, sofrem interrupções e deixam para trás prejuízos materiais, expectativas frustradas e um enorme custo para a sociedade.

BARRAGEM DE JEQUITAÍ: O RETRATO DE MEIO SÉCULO DE PROMESSAS E ABANDONO

Por: Aurélio Vidal As imagens falam por si. No lugar onde deveria existir uma das mais importantes obras de infraestrutura hídrica do Norte de Minas, o que se vê é um cenário de abandono: equipamentos esquecidos, toneladas de ferragens expostas ao tempo, estruturas deterioradas e um patrimônio público que, ano após ano, perde valor diante da completa falta de utilização. Em determinados pontos, a impressão

É preciso garantir a permanência dessas famílias na terra, promover a regularização documental de suas propriedades e assegurar que os investimentos finalmente cheguem para concluir aquilo que ficou inacabado.

JAÍBA: AS CONTRADIÇÕES DE UM SONHO CHAMADO DESENVOLVIMENTO

Por Aurélio Vidal – Jornalista Sempre que falo sobre o Projeto Jaíba, minha memória faz questão de me levar cerca de quarenta anos atrás. Naquela época, eu vivia um dos períodos mais intensos da minha juventude, trabalhando como mascate e percorrendo centenas de quilômetros pelas estradas do Norte de Minas. Eram tempos em que praticamente toda aquela região era cortada por longas estradas de terra

Quer ver mais conteúdos?

Assine Nossa Newsletter

E fique por dentro do contexto de Minas e de tudo que acontece no Brasil e no mundo.

Pod Sertão Pautando o melhor do Sertão Mineiro

Olá, visitante