PLACAS GIGANTES, COMPROMISSOS PEQUENOS: A FARRA DOS OUTDOORS NO NORTE DE MINAS

Confesso: o sertão norte-mineiro anda mais colorido. Não pelas chuvas — que Deus sabe fazem falta —, mas pela explosão súbita de outdoors com sorrisos engomados, slogans genéricos e aquela velha promessa implícita de que agora vai. É curioso como esses painéis brotam do chão exatamente na véspera — ou no ano — eleitoral. Coincidência? Só se for daquelas que se repetem religiosamente a cada quatro anos.

Por Aurélio Vidal

Confesso: o sertão norte-mineiro anda mais colorido. Não pelas chuvas — que Deus sabe fazem falta —, mas pela explosão súbita de outdoors com sorrisos engomados, slogans genéricos e aquela velha promessa implícita de que agora vai. É curioso como esses painéis brotam do chão exatamente na véspera — ou no ano — eleitoral. Coincidência? Só se for daquelas que se repetem religiosamente a cada quatro anos.

Como ferrenho fiscal do povo, não me incomoda a comunicação em si. Incomoda o quando, o como e, sobretudo, quem paga a conta. Porque enquanto o país sangra sob uma crise econômica persistente, com uma máquina pública das mais caras do planeta e uma dívida que assusta até contador experiente, nós somos convidados a engolir a perversidade do desperdício travestido de “divulgação institucional”.

Convém lembrar: fora do período oficial de campanha, deputados e senadores podem, sim, bancar publicidade com dinheiro público por meio da famosa Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP) — o “cotão”. A justificativa é nobre no papel: informar a população sobre projetos, ações e o desempenho do mandato. As regras dizem que não pode haver pedido de voto nem menção explícita ao pleito. Tudo muito bonito. Tudo muito “legal”. Tudo muito conveniente quando a estética lembra campanha e o calendário sussurra eleição.

A fiscalização existe, dizem. TCU, Justiça Eleitoral, órgãos de controle… todos atentos, em tese. Mas, na prática, o que o povo vê é o rosto ampliado do parlamentar ocupando o horizonte, enquanto hospitais pedem socorro, estradas viram armadilhas, escolas sobrevivem de improviso e a fome insiste em bater à porta de muita gente. Prioridades? Parece que ficaram do outro lado do outdoor.

Como ferrenho fiscal do povo, não me incomoda a comunicação em si. Incomoda o quando, o como e, sobretudo, quem paga a conta. Porque enquanto o país sangra sob uma crise econômica persistente, com uma máquina pública das mais caras do planeta e uma dívida que assusta até contador experiente, nós somos convidados a engolir a perversidade do desperdício travestido de “divulgação institucional”.

Ano Pré-Eleitoral: o Milagre da Multiplicação dos Outdoors com Dinheiro Público

E quando chega o período eleitoral, a ironia vira lei: outdoor é proibido. A legislação (Lei nº 9.504/97) veta esse tipo de propaganda, inclusive eletrônica, justamente para evitar o desequilíbrio financeiro na disputa. Não pode com dinheiro próprio, não pode com doação, não pode com fundo partidário. Ou seja, quando é campanha de verdade, o outdoor some. Antes dela, porém, aparece com força total — pago com recursos públicos, sob a benção da “divulgação do mandato”.

O País Quebrado, o Outdoor de Pé: a Indecência do Marketing Parlamentar

O resultado é essa encenação custosa e indecente: gasta-se muito para dizer pouco, em placas gigantes, enquanto o essencial permanece pequeno, invisível e esquecido. Falta compromisso. Falta respeito com a coisa pública. Sobra desfaçatez de gastadores sem pudor, que confundem informação com autopromoção e fiscalização com detalhe burocrático.

No sertão, a gente aprende cedo a diferenciar promessa de chuva. Nuvem escura não garante água. Outdoor grande não garante trabalho. E dinheiro público, quando mal usado, não é pecado venial — é ofensa direta a quem paga imposto e espera, no mínimo, ser tratado com seriedade.

Que se comuniquem, sim. Mas que o façam com sobriedade, transparência e senso de prioridade. Porque o povo não precisa de mais placas. Precisa de menos desperdício e mais respeito.

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