Por Aurélio Vidal
Mais uma vez o povo sertanejo do Norte de Minas está sendo colocado contra a parede por decisões friamente arquitetadas dentro de gabinetes em Brasília, longe da realidade de quem vive da terra, produz alimento e sustenta sua família sob o sol escaldante do semiárido mineiro.
O que o Governo Federal tenta vender como “modernização”, “desenvolvimento sustentável” e “avanço econômico” nas Etapas III e IV do Projeto Jaíba é, na prática, mais um capítulo do processo sistemático de enfraquecimento da autonomia do nosso povo.
E digo isso com absoluta responsabilidade e conhecimento de causa.

Tenho acompanhado há anos as movimentações políticas e institucionais que vêm sendo impostas ao Norte de Minas, ao Vale do Jequitinhonha e ao Vale do Mucuri. O discurso é sempre bonito. Falam em sustentabilidade, inclusão, preservação e desenvolvimento. Mas, quando descemos ao chão da realidade, encontramos perseguições, insegurança fundiária, medo e abandono.

Agora, o alvo da vez é o Projeto Jaíba.
Segundo dados divulgados pelo próprio Governo Federal, a proposta prevê ampliar em cerca de 30 mil hectares as áreas do projeto, sendo aproximadamente 19 mil hectares irrigáveis, com previsão de investimentos bilionários ao longo das próximas décadas.
Na propaganda oficial, tudo parece perfeito.
Mas o governo omite uma pergunta básica e revoltante: como falar em expansão se nem mesmo as etapas anteriores foram concluídas de forma digna e eficiente?
O Projeto Jaíba nasceu ainda na década de 1950 como símbolo de esperança para o sertão mineiro. Décadas depois, milhares de produtores continuam convivendo com problemas estruturais gravíssimos, canais sem manutenção adequada, insegurança jurídica, dificuldades de regularização, ausência de assistência técnica e abandono operacional.
As Etapas I e II nunca atingiram plenamente aquilo que foi prometido ao povo.
Mesmo assim, querem agora avançar sobre novas áreas, empurrando um modelo de concessão por meio de CDRU — Concessão de Direito Real de Uso — dentro do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), abrindo caminho para que grandes grupos econômicos assumam o controle da infraestrutura irrigada da região.
E quem está ouvindo o pequeno produtor?
Quem está ouvindo o sertanejo que há 30, 40 ou até 50 anos vive naquela terra?
A resposta é simples: praticamente ninguém.
A chamada “audiência pública” promovida recentemente pela Codevasf foi tratada oficialmente como um espaço democrático de escuta popular. Mas inúmeros moradores relataram exatamente o contrário: uma pauta praticamente pronta, conduzida de cima para baixo, sem transparência e sem disposição verdadeira para ouvir quem será diretamente impactado pelas decisões.
O sentimento entre os produtores é claro: atropelo.
Mais uma vez, tentam empurrar decisões estruturais sem respeitar a história das famílias que construíram aquela região com suor, sacrifício e resistência.
E isso não acontece por acaso.
Existe hoje uma política silenciosa de neutralização da autonomia produtiva do sertão brasileiro. Sob a bandeira da chamada “agenda ambiental”, multiplicam-se reservas, restrições territoriais, fiscalizações seletivas, multas e perseguições administrativas que acabam sempre recaindo sobre o pequeno produtor.
O modus operandi é conhecido.
Primeiro vêm as pressões institucionais. Depois surgem os projetos de reorganização territorial. Em seguida aparecem os grandes interesses econômicos e os investidores externos ocupando espaços historicamente pertencentes ao povo simples da região.
Foi assim em áreas do Alto Rio Pardo. Agora a história parece se repetir dentro do Jaíba.
Enquanto isso, boa parte da classe política regional permanece em silêncio absoluto.
Infelizmente, o Norte de Minas continua órfão de representação firme no Congresso Nacional. Muitos dos que foram eleitos preferem investir no velho modelo do “pão e circo”: festas milionárias, marketing pessoal e distribuição de paliativos financiados por emendas parlamentares, enquanto os problemas estruturais seguem sendo empurrados para debaixo do tapete.
Falta coragem.
Falta compromisso.
Falta disposição para enfrentar os interesses que hoje avançam sobre o território sertanejo.
E pior: grande parte da mídia nacional ajuda a construir uma narrativa artificial de progresso, escondendo a realidade dura enfrentada pelas famílias produtoras.
Vendendo para o Brasil a ideia de que o governo está “levando desenvolvimento” ao sertão.
Mas quem pisa na terra sabe que a realidade é outra.
O que existe hoje no Jaíba é medo, indignação e insegurança.
Por isso, faço aqui um apelo público ao senador Plínio Valério, parlamentar que tem se destacado nacionalmente na defesa da soberania territorial e das populações do interior do Brasil.
É preciso romper o silêncio.
É preciso levar essa denúncia à tribuna do Senado Federal.
O Brasil precisa saber o que verdadeiramente está acontecendo no Norte de Minas.
E faço também um pedido direto ao senador Plínio Valério para que articule, junto à presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado, a senadora Damares Alves, uma agenda oficial para que possamos apresentar pessoalmente denúncias, documentos e relatos das famílias atingidas por esse processo.
Porque essa situação já deixou de ser apenas uma discussão administrativa ou econômica.
Estamos falando de dignidade humana.
Estamos falando do direito das famílias permanecerem em suas terras.
Estamos falando de trabalhadores humildes que construíram sua história no sertão e que agora vivem sob ameaça de perder espaço para interesses políticos e econômicos muito maiores que eles.
O povo da Jaíba não quer privilégio.
Quer respeito.
Quer transparência.
Quer voz.
E, acima de tudo, quer continuar existindo dentro da própria terra.




