— Aurélio Vidal, jornalista.
Na condição de jornalista e cidadão comprometido com a verdade e com a justiça social, venho relatar uma situação extremamente preocupante que tem tirado o sono de aproximadamente 1.500 famílias estabelecidas há décadas na região do assentamento do Projeto Jaíba, no Norte de Minas Gerais.
São homens e mulheres que construíram suas vidas naquela terra, transformando áreas antes improdutivas em espaços de produção, sustento e dignidade. Famílias inteiras criaram raízes no local, educaram seus filhos, desenvolveram a agricultura familiar e contribuíram diretamente para o fortalecimento econômico e social da região.

Agora, essas mesmas famílias vivem um clima de insegurança e apreensão diante da nova proposta do Governo Federal de ampliar as áreas 3 e 4 do Projeto Jaíba. Embora o desenvolvimento seja importante e necessário, a grande preocupação dos moradores é que essa expansão aconteça sem diálogo transparente, sem garantias sociais e sem o devido respeito à história de quem já ocupa e produz naquela região há tantos anos.
Após uma audiência pública realizada na última quinta-feira, em Jaíba, a preocupação da população aumentou ainda mais. Diante da falta de respostas concretas e da insegurança sobre o futuro das famílias, ontem, sexta feira, moradores da região voltaram a se reunir de forma expressiva, na comunidade de Nova Cachoeirinha, para debater os impactos e os desdobramentos do processo de ampliação das áreas 3 e 4 do projeto.
A reunião contou com grande participação popular, reunindo produtores rurais, lideranças comunitárias, trabalhadores e moradores que demonstraram forte apreensão quanto aos rumos das decisões envolvendo o Projeto Jaíba.

Como jornalista, percorri mais de 400 quilômetros em um bate e volta para participar presencialmente daquela importante reunião e ouvir de perto os relatos da população sertaneja, que vive um momento de angústia e insegurança.
Durante minha participação, destaquei a preocupação de muitos moradores com o avanço de políticas que, segundo os produtores locais, vêm dificultando o desenvolvimento regional, reduzindo a autonomia das famílias do campo e ampliando a concentração das riquezas minerais e das áreas produtivas nas mãos de grandes grupos econômicos. Também foram feitas críticas à condução de medidas consideradas prejudiciais ao agronegócio e aos pequenos produtores rurais, especialmente diante da sensação de insegurança jurídica e das dificuldades enfrentadas por quem produz e gera empregos no campo.
O sentimento predominante entre os assentados é de abandono e incerteza. Muitos temem perder suas terras, suas casas e todo o patrimônio construído ao longo de décadas de trabalho árduo. Há relatos de famílias desesperadas, sem informações claras sobre o futuro, enquanto cresce a sensação de que decisões estão sendo tomadas sem ouvir aqueles que serão diretamente afetados.
É preciso lembrar que o Projeto Jaíba sempre foi apresentado como símbolo de desenvolvimento agrícola e inclusão social. Porém, não pode existir desenvolvimento verdadeiro quando milhares de famílias vivem sob ameaça de deslocamento ou perda de direitos.
Defendo que qualquer proposta de ampliação das áreas 3 e 4 seja conduzida com responsabilidade, humanidade e participação popular. O Governo Federal precisa abrir canais de diálogo, garantir segurança jurídica às famílias assentadas e apresentar soluções que preservem tanto o avanço do projeto quanto a dignidade das pessoas que ajudaram a construir a história daquela região.
O Norte de Minas não pode assistir calado ao sofrimento dessas famílias. O momento exige sensibilidade, transparência e compromisso social. Afinal, por trás de cada lote existe uma história de luta, trabalho e esperança que merece ser respeitada.
Entre os produtores presentes, o senhor Cosme Joaquim Aureliano, paraibano e morador da região há quase seis décadas, relatou a angústia diante da possibilidade de perder sua propriedade. Emocionado, afirmou: “Meu sentimento é muito grande. Não podem tomar nossa terrinha. São quase 60 anos morando aqui”. Segundo ele, o medo e a preocupação têm tomado conta das famílias da comunidade.

Outro relato marcante foi o do senhor Egídio, de 82 anos, que demonstrou indignação com a maneira como a situação vem sendo conduzida. “Eu já vim para cá despejado, lutei para conquistar esse pedacinho de terra, comprado com meu suor. Nasci e cresci na beira do Rio Verde, aqui criei toda minha família. Vivemos sossegados aqui, e isso é um desprezo muito grande com nós”, desabafou o produtor, classificando a situação como uma grande covardia.

Dona Maria Eliene dos Santos, moradora da comunidade rural do Jaíba, também se mostrou profundamente abalada com o projeto. Há 42 anos vivendo na propriedade iniciada por seu pai, ela teme perder o local onde construiu toda sua história de vida. Maria Eliene pede apoio das autoridades para impedir que as famílias sejam prejudicadas de forma injusta.

Já Dona Lina Maria, de 76 anos, moradora da comunidade de Linha Nova, afirmou sentir-se lesada em seus direitos e revoltada com a falta de diálogo. Segundo ela, os moradores não são contra a ampliação do projeto, mas não aceitam que as decisões sejam impostas “goela abaixo”, sem ouvir a população diretamente atingida.
O jovem vereador Diego Moreira, presidente da Câmara Municipal de Jaíba, também se posicionou ao lado da população e declarou indignação diante da proposta. Segundo ele, o projeto não reconhece a importância nem a legitimidade das famílias que vivem na região desde a década de 1970.

“Estão destruindo o sonho dessas pessoas. Vamos buscar apoio junto ao governador para tentar preservar nosso povo e reverter esse processo”, afirmou o parlamentar.
O produtor rural Carlito, natural de Santa Catarina, contou que escolheu Jaíba para viver e investir. Após aplicar recursos na propriedade e estruturar sua produção, ele afirma não conseguir imaginar o futuro da região diante da iniciativa do Governo Federal. Em tom emocionado, relatou ainda que já enfrentou dificuldades relacionadas à manutenção de suas terras, aumentando o sentimento de insegurança entre os produtores.
Reforçando as falas dos demais moradores, um produtor rural e presidente de associação local há dois anos desabafou revoltado: “É um sonho que está sendo destruído. Minha terra eu não vendo por dinheiro nenhum. São sete hectares e meio, mas não vendo”. O depoimento resume o sentimento de centenas de famílias que enxergam na terra não apenas um patrimônio, mas uma vida inteira construída com trabalho, esperança e dignidade.




