O PAPEL DO MINISTÉRIO PÚBLICO E DO CIMAMS NA DEFESA DOS GERAIZEIROS

E é aí que está o ponto central da minha reflexão: por que essas conquistas chegam às comunidades pela via do MP e do Cimams, e não pelo ICMBio, que é justamente o órgão criado para administrar a reserva e que dispõe de orçamento milionário?

Por Aurélio Vidal

Em fevereiro deste ano, durante a realização do Ministério Público Itinerante em Montezuma, eu estive acompanhando uma ação que merece destaque. A Cooperativa de Agricultores Coletores Restauradores Agroextrativistas do Alto Rio Pardo (Coocrearp) recebeu um conjunto de maquinários adquiridos com recursos do Fundo Especial do Ministério Público de Minas Gerais (Funemp), em parceria com o Cimams. Foi um momento histórico para aquela comunidade de homens e mulheres que, há mais de dez anos, chegaram a enfrentar até greve de fome e sede em Brasília para conquistar a criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Nascentes Geraizeiras.

Essa iniciativa, fruto da união entre o Ministério Público e o Cimams, representa mais do que a entrega de máquinas: é a prova de que ainda existem instituições comprometidas com quem realmente vive e sofre no sertão norte-mineiro.

Na ocasião, mais de R$ 1 milhão em equipamentos foram destinados à cooperativa, fortalecendo o trabalho dos extrativistas e geraizeiros na coleta de sementes, produção de mudas e recuperação ambiental. Essa iniciativa, fruto da união entre o Ministério Público e o Cimams, representa mais do que a entrega de máquinas: é a prova de que ainda existem instituições comprometidas com quem realmente vive e sofre no sertão norte-mineiro.

Mas vamos à realidade.
Ontem, 28 de agosto, eu voltei a registrar outra importante ação. O CIMAMS, em parceria com o Ministério Público de Minas Gerais, realizou a entrega de um veículo refrigerado de pequeno porte à Cooperativa de Agricultores, Coletores, Restauradores e Agroextrativistas (COOCREARP), em Montezuma.  

Parabéns ao Cimams e Ministério Público

E é aí que está o ponto central da minha reflexão: por que essas conquistas chegam às comunidades pela via do MP e do Cimams, e não pelo ICMBio, que é justamente o órgão criado para administrar a reserva e que dispõe de orçamento milionário?

Mais uma vez, uma ação efetiva e direta do Ministério Público em parceria com o Cimams. O equipamento reforça as ações de fortalecimento da produção extrativista e do desenvolvimento sustentável no Alto Rio Pardo.

E é aí que está o ponto central da minha reflexão: por que essas conquistas chegam às comunidades pela via do MP e do Cimams, e não pelo ICMBio, que é justamente o órgão criado para administrar a reserva e que dispõe de orçamento milionário?

Tenho acompanhado de perto essa situação nos últimos três anos, e o que vejo é um cenário de descaso e opressão por parte dos administradores daquela RDS. O ICMBio, ao invés de ser parceiro, tem se tornado um entrave. Não investe em infraestrutura mínima, como a manutenção das estradas que cortam a reserva. Não destina recursos diretos às famílias geraizeiras, que são justamente as responsáveis por preservar o cerrado e manter vivas as tradições locais. Ao contrário, muitas vezes limita o trabalho dessas pessoas, que só querem plantar e extrair da terra o necessário para sobreviver com dignidade.

É preciso deixar claro: não sou contra a criação da RDS, tampouco contra a preservação ambiental. Sou contra a forma como o ICMBio conduz esse processo, impondo regras sem garantir condições de vida para quem está na linha de frente. E mais grave: alguns de seus representantes, inclusive lideranças cooptadas das próprias comunidades, acabam se beneficiando pessoalmente, enquanto a grande maioria dos sertanejos segue sobrevivendo do seu trabalho na terra, hoje, controlada por um sistema opressor.

Se hoje essas famílias têm algum amparo, é porque o Ministério Público de Minas Gerais e o Cimams assumiram o papel que o ICMBio deveria cumprir. Foram eles que trouxeram equipamentos, veículos e apoio real, garantindo que os geraizeiros possam continuar preservando as nascentes e produzindo para o próprio sustento.

Enquanto isso, o órgão federal que deveria proteger e apoiar esse povo permanece distante, agindo de forma burocrática, seletiva e, muitas vezes, autoritária.

O sertão das Gerais não precisa de discursos vazios nem de opressão. Precisa de investimento, respeito e condições de vida dignas para os geraizeiros que são, de fato, os guardiões do cerrado.

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