Por Aurélio Vidal
A imprensa norte-mineira carrega uma trajetória centenária de lutas, ideias e compromisso público. Desde 1884, com o Correio do Norte, passando por jornais como Jornal de Montes Claros, Diário de Montes Claros, Jornal do Norte e Jornal de Notícias, a comunicação regional sempre foi construída por homens e mulheres que acreditavam no jornalismo como instrumento de justiça social e consciência coletiva.
Profissionais como Américo Martins Filho, Jorge Antônio dos Santos, Caio Lafetá, Júlio de Melo Franco, Yvonne Silveira, Hermes de Paula, Elias Siufi, Osvaldo Antunes, Luís Carlos Novaes (Peré), entre tantos outros, ajudaram a escrever essa história com seriedade, independência e respeito ao leitor. Eram tempos em que o jornalista não buscava agradar autoridades, mas cumprir sua missão de informar, questionar e registrar os fatos.
Foi inspirado nesse legado que, em 2013, criei o Troféu Imprensa Norte de Minas. O objetivo era simples e, ao mesmo tempo, profundo: homenagear quem honrou o jornalismo regional, preservar a memória da imprensa e valorizar profissionais comprometidos com a verdade.

Com o passar dos anos, no entanto, tornou-se impossível ignorar uma realidade incômoda. O jornalismo local foi, em grande parte, absorvido por estruturas de assessoria institucional e política. A independência editorial deu lugar à conveniência. A crítica cedeu espaço ao elogio fácil. As manchetes passaram a exaltar figuras públicas de forma repetitiva, quase sempre alinhadas a interesses específicos.

Tive o privilégio e a honra de homenagear, ainda em vida, grandes nomes da comunicação e da cultura norte-mineira. Pessoas que cravaram seus nomes na memória da nossa imprensa e da nossa arte, deixando um legado que o tempo não apaga: Luís Carlos Novaes (Peré), Elias Siufi, Yvonne Silveira, Téo Azevedo, João Marques, Zé Maria Repórter e Reginauro Silva. Lendas vivas, que fizeram história e ajudaram a contar a história do nosso sertão.
Esse cenário me causou profundo desconforto. O Troféu, que nasceu para celebrar a coragem e a ética jornalística, passou a confrontar uma prática cada vez mais distante desses valores. Por essa razão, e por coerência com tudo o que sempre defendi, optei por encerrar a premiação.
O fim do Troféu Imprensa Norte de Minas não representa desistência. Representa um alerta. Um gesto de inconformismo diante da perda do senso de justiça, verdade e independência que sempre sustentaram o bom jornalismo.
Preservar a memória da imprensa regional é, hoje, mais do que um ato de homenagem. É um chamado à reflexão. Porque sem coragem, sem ética e sem compromisso com a verdade, não há jornalismo — apenas divulgação conveniente.




