Por Aurélio Vidal
Confesso que sempre observo com atenção — e uma dose nada desprezível de cautela — a composição e o funcionamento da Câmara Municipal de Montes Claros. Dos 23 vereadores eleitos, apenas cinco estão em seu primeiro mandato. Os outros 18 foram reconduzidos às cadeiras, o que, em tese, deveria significar experiência, maturidade política e, principalmente, zelo redobrado com o dinheiro público. Some-se a isso um fato histórico: pela primeira vez, cinco mulheres assumiram mandato na Casa Legislativa e já completaram o primeiro ano de atuação. Um marco institucional relevante, sem dúvida. Resta saber se esse marco também se refletirá na prática administrativa e no compromisso com a transparência.

Como de costume — e talvez aqui resida o meu maior pecado institucional — sigo sendo um dos raríssimos profissionais da imprensa local que insiste em fazer aquilo que deveria ser rotina: cobrar prestação de contas. Simples assim. Nada de heroísmo, apenas jornalismo. Pelo menos duas vezes ao ano, protocolei solicitações formais pedindo a relação de gastos dos gabinetes e a lista de contratados. Nada além do que manda a lei e exige o bom senso.
Diárias sob Vigilância: Câmara de Montes Claros entra no radar da fiscalização pública
Mais uma vez, voltei meus olhos para um velho conhecido dos cofres públicos: as diárias parlamentares. Esse mecanismo, que deveria servir ao interesse público, tem se tornado, curiosamente, uma prática cada vez mais frequente e confortável naquela Casa. Em 2025, por exemplo, apenas uma viagem a Brasília chamou atenção pelo apetite financeiro: o novato vereador Eduardo Preto, acompanhado de seu motorista, consumiu cerca de seis mil reais em uma única ida à capital federal — valor destinado exclusivamente a alimentação e hospedagem. O transporte, como sempre, correu por fora, porque o contribuinte é resiliente e aparentemente inesgotável.

No final do ano passado, protocolei ofícios em alguns gabinetes solicitando informações detalhadas desses gastos. E hoje, segunda-feira, estarei completando a tarefa, protocolando os pedidos restantes nos gabinetes que ainda não receberam o documento. Não se trata de perseguição, como alguns gostam de insinuar nos corredores abafados do poder. Trata-se de método. Um instrumento básico de monitoramento para que eu possa pautar com conhecimento de causa, responsabilidade e, sobretudo, respeito ao dinheiro de quem sustenta essa engrenagem: o pagador de impostos.
Todos os 23 vereadores — Caroline Figueiredo Costa, Cecília Meireles Ferreira, Iara de Fátima Pimentel Veloso, Maria das Graças Gonçalves Dias, Maria Helena de Quadros Lopes, Ailton Soares dos Reis, Cláudio Rodrigues de Jesus, Daniel Dias da Silva, Edson Pereira dos Santos, Eduardo Vinícius Soares Ferreira, Eldair Gonçalves dos Santos, Igor Gustavo Dias, José Crisóstomo Lopes, José Marcos Martins de Freitas, Marlus Mendes Soares, Martins Lima Filho, Odair Ferreira Oliveira, Paulo César Landim Miranda, Raimundo Pereira da Silva, Reinaldo Antônio Dias, Rodrigo Maia de Oliveira, Soter Magno do Carmo e Wilton Afonso Dias Soares — serão oficialmente notificados.
Agora, resta observar o comportamento institucional. Será que algum parlamentar ousará se negar a prestar contas à população? Espero, sinceramente, que não. Acredito que tudo será devidamente esclarecido e que os gastos estejam sendo realizados com responsabilidade, parcimônia e respeito à coisa pública — embora a experiência me obrigue a manter uma sobrancelha levemente arqueada.
Vale lembrar que essa vigilância não se limita à Câmara de Montes Claros. Acompanho gastos de diversas casas legislativas do Norte de Minas. Em Taiobeiras, por exemplo, denúncias fundamentadas sobre abusos em diárias resultaram na derrubada de cinco vereadores gastões — um episódio que alguns preferem esquecer, mas que os cofres públicos certamente não esqueceram. Também mantenho atenção constante sobre executivos municipais e outras instituições.
Jornalismo sério não se faz com tapinhas nas costas, nem com silêncio conveniente. Faz-se com firmeza, independência e responsabilidade. Mesmo quando isso incomoda. Especialmente quando incomoda.




