Por Aurélio Vidal
Eu confesso: tentei não comentar.
Segurei esse relato por quase duas semanas. Evitei tornar público o que vi porque não queria, de forma alguma, expor ou prejudicar os profissionais que estavam ali, na linha de frente. Profissionais, aliás, que merecem não críticas, mas aplausos. Médicos, enfermeiros, equipe de apoio, vigilantes, zeladores — todos fazendo o possível, e até o impossível, dentro de um sistema que claramente não os respeita.
Mas chega uma hora em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser conivência.
E eu não fui feito para ser conivente.
O que testemunhei no Hospital Universitário Clemente de Faria, aqui em Montes Claros, não foi apenas um problema estrutural. Foi um retrato escancarado do descaso com o dinheiro público e, principalmente, com a dignidade das pessoas.
Eu acompanhava uma paciente em busca de atendimento médico. O tempo estava fechado, a chuva caía forte, daquelas que impõem respeito. Fizemos o protocolo: triagem realizada, e depois, uma espera de quase duas horas.
Até aí, infelizmente, nada fora do “normal” dentro da realidade do sistema de saúde.
Mas o absurdo ainda estava por vir.
Quando finalmente entramos para o atedimento, a cena era inacreditável. Não era figura de linguagem — parecia, de fato, que chovia mais dentro do consultório que do lado de fora. Três recipientes improvisados tentavam conter a água que despencava do teto como uma pequena cachoeira, bem no meio do ambiente onde deveria existir, no mínimo, condições dignas de atendimento.

O paciente, fragilizado, tentava se posicionar.
Os médicos — dois profissionais extremamente competentes e respeitosos — se desdobravam entre o atendimento clínico e a necessidade constante de desviar das goteiras.
Era constrangedor.
Era humilhante.
Era revoltante.
E não para por aí: aquilo não atinge apenas quem busca atendimento. Aquilo agride, diretamente, a dignidade de quem trabalha ali todos os dias. Profissionais que estudaram, se dedicaram, que carregam a responsabilidade de salvar vidas — obrigados a exercer suas funções em condições que beiram o improviso de um cenário de calamidade.
E aqui eu faço questão de deixar muito claro: a culpa não é desses profissionais. Eles, inclusive, são vítimas desse sistema perverso, irresponsável e, muitas vezes, ineficiente.
O que me incomoda — e muito — é saber que estamos falando de uma estrutura vinculada a uma universidade pública, com orçamento significativo. Recursos existem. O que parece faltar, de forma gritante, é gestão eficiente, prioridade e compromisso com aquilo que realmente importa.
Porque não estamos falando de luxo.
Estamos falando do básico.
De um teto que não pode desabar em forma de goteira sobre a cabeça de pacientes e médicos.
De respeito.
Sim, respeito. Com quem paga a conta. Porque essa conta tem dono: é o povo.
Alguns dizem que eu sou um jornalista “encrenqueiro”. Que sou barulhento. Que, às vezes, sou até chato.
Eu não nego.
Sou mesmo.
E vou além: por conta da minha franqueza, já fui — e ainda sou — desagradável até com amigos e familiares quando o assunto é respeito com a coisa pública.
Porque não existe meio termo quando se trata disso.
Ou você cobra, ou você aceita.
E aceitar esse tipo de situação não é uma opção.
O que eu vi naquele consultório não pode ser tratado como algo pontual, como “mais um problema”. Aquilo é sintoma de algo maior: um modelo de gestão que falha onde não poderia falhar.
Hoje foram goteiras.
Amanhã, pode ser algo ainda mais grave.
Fica aqui o meu respeito absoluto aos profissionais do Hospital Universitário — verdadeiros guerreiros, que seguem firmes apesar de tudo.
E fica também a minha indignação.
Porque enquanto a chuva cai lá fora, não pode — jamais — continuar caindo dentro de um hospital.




