EUCLIDES DA CUNHA: O HOMEM QUE ESCUTOU O GRITO DO SERTÃO

Sempre que volto os olhos para a história do sertão brasileiro, um nome inevitavelmente surge como uma espécie de ponte entre o Brasil do litoral e o Brasil profundo: Euclides da Cunha. Como jornalista do Norte de Minas e apaixonado pelas narrativas do sertão, aprendi a enxergar nesse escritor não apenas um intelectual da virada do século, mas alguém que teve a coragem de atravessar as distâncias físicas e culturais que separavam o país oficial daquele Brasil esquecido, castigado pela seca e pelo abandono.

Por Aurélio Vidal

Sempre que volto os olhos para a história do sertão brasileiro, dois nomes inevitavelmente surge como uma espécie de ponte entre o Brasil do litoral e o Brasil profundo: Euclides da Cunha e Guimarães Rosa.

Mas hoje, vamos relatar sobre Euclides da Cunha. Como jornalista do Norte de Minas e apaixonado pelas narrativas do sertão, aprendi a enxergar nesse escritor não apenas um intelectual da virada do século, mas alguém que teve a coragem de atravessar as distâncias físicas e culturais que separavam o país oficial daquele Brasil esquecido, castigado pela seca e pelo abandono.

Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em 20 de janeiro de 1866, na cidade de Cantagalo, no Rio de Janeiro. Órfão de mãe ainda muito pequeno, foi criado por tias e passou parte da infância entre o Rio e fazendas no interior da Bahia — talvez aí tenham surgido os primeiros contatos com o universo sertanejo que mais tarde marcaria sua obra.

Desde jovem revelou espírito inquieto.

Ingressou na Escola Politécnica aos 19 anos, mas logo transferiu-se para a Escola Militar da Praia Vermelha, onde se destacou tanto pelos estudos quanto pelas ideias políticas. Era um republicano convicto em tempos em que a monarquia ainda governava o Brasil.

Conta a história que, em 1888, durante uma cerimônia militar, protagonizou um gesto que marcaria sua trajetória: lançou o espadim aos pés do Ministro da Guerra do Império e gritou um viva à República. O episódio lhe custou a expulsão da carreira militar naquele momento, mas revelou o temperamento firme e combativo que o acompanharia por toda a vida.

Nos anos seguintes, Euclides transitou entre a engenharia, o jornalismo e o pensamento político. Trabalhou em obras públicas, escreveu para jornais e passou a refletir cada vez mais sobre os dilemas do país.

Mas foi um acontecimento no interior da Bahia que mudaria definitivamente seu destino intelectual.

Em 1897, quando a Guerra de Canudos já chamava a atenção de todo o Brasil, o jornal O Estado de S. Paulo decidiu enviar um correspondente ao sertão para acompanhar os acontecimentos. O escolhido foi Euclides da Cunha.

Ali, diante da poeira das batalhas, da resistência sertaneja e da tragédia humana que se desenrolava nas caatingas da Bahia, ele testemunhou um dos capítulos mais dramáticos da história brasileira.

Canudos não era apenas um conflito militar. Era o encontro brutal entre dois Brasis: o oficial, urbano e republicano, e o profundo, formado por sertanejos pobres que haviam encontrado em Antônio Conselheiro uma liderança espiritual e social.

Euclides voltou do sertão profundamente impactado.

Nos anos seguintes, enquanto trabalhava na construção de uma ponte em São José do Rio Pardo, em São Paulo, dedicou-se a transformar aquelas impressões em um livro que se tornaria uma das obras mais importantes da literatura brasileira: “Os Sertões”, publicado em 1902.

Mais do que um relato de guerra, o livro buscava explicar o Brasil.

Dividida em três partes — A Terra, O Homem e A Luta — a obra analisa desde a geografia hostil da caatinga até a formação social do sertanejo e o desenrolar da campanha militar contra Canudos.

Foi ali que nasceu uma das frases mais conhecidas da literatura brasileira:

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

Para mim, como alguém que vive e percorre os caminhos do Norte de Minas e do sertão, essa frase nunca soou apenas como literatura. Ela sempre me pareceu uma verdade profunda sobre a resistência do povo do interior brasileiro.

Com Os Sertões, Euclides da Cunha tornou-se uma das vozes mais importantes do chamado Pré-Modernismo, período em que escritores começaram a olhar o país real, suas desigualdades e contradições, abandonando um pouco do romantismo literário que dominava a época.

Em 1903, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras e também passou a integrar o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Trabalhou ainda no Itamaraty ao lado do Barão do Rio Branco, contribuindo com reflexões sobre o território e a identidade nacional.

Mas sua vida pessoal caminhava para um desfecho trágico.

Em 1909, envolvido em um drama familiar e desconfiado de uma traição conjugal, Euclides dirigiu-se à casa do homem que seria o amante de sua esposa. O confronto terminou de forma fatal: atingido por tiros, morreu no Rio de Janeiro, em 15 de agosto de 1909, aos 43 anos.

A morte foi abrupta, quase novelesca, mas sua obra permaneceu.

Mais de um século depois, Euclides da Cunha continua sendo um dos intelectuais que melhor tentou compreender o Brasil profundo — aquele que muitas vezes ainda permanece invisível para quem olha o país apenas a partir das capitais.

E talvez por isso, cada vez que releio suas páginas ou recordo suas descrições da caatinga, sinto que ele não escreveu apenas sobre Canudos.

Ele escreveu sobre o destino do próprio sertão.

Um sertão que, entre espinhos, poeira e resistência, ainda insiste em contar suas histórias.

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