Por Aurélio Vidal
Estive neste final de semana de carnaval na comunidade de Serra Nova e voltei com o coração pesado — mas também com a convicção de que é possível fazer diferente.
A criação do Parque Estadual Serra Nova e Talhado é apresentada como símbolo de preservação ambiental. No papel, um avanço. No chão da comunidade, porém, ainda ecoam relatos de famílias que, por mais de um século, viveram da extração artesanal de pedra e areia — trabalho manual, feito na pá, na talhadeira e na força do braço — e que foram impedidas de continuar sua tradição sem que houvesse uma transição justa e estruturada. Abaixo: Vista aérea de Serra Nova

Não se tratava de mineração predatória. Era atividade artesanal, integrada à vida local, somada à pequena produção agrícola de mandioca, abóbora, feijão, quiabo e outros cultivos que garantiam o sustento básico.
Ouvi histórias que me marcaram profundamente, como a de Seu Gumercindo, Seu Delfino Moreira e também do Seu Gercino Gonçalves (Seu Gerson), 62 anos, que após décadas de trabalho honesto, precisou deixar sua propriedade com cinco filhos pequenos, enfrentando dificuldades severas antes de buscar oportunidade em outras regiões. São relatos humanos, concretos, que não cabem em relatórios frios. Foto abaixo: Seu Gerson e a esposa Dona Cida.

Mas é preciso dizer com equilíbrio: preservar é necessário. O que não é necessário é transformar preservação em perseguição ou opressão.
É plenamente possível conciliar produção artesanal, turismo ecológico e manutenção dos atrativos ambientais do parque. O caminho não é expulsar. É organizar. Não é proibir sem alternativa. É capacitar, orientar, oferecer suporte técnico e criar regras claras que permitam a continuidade das tradições como patrimônio histórico-cultural daquela comunidade. Foto abaixo: Seu Gumercindo, hoje e antes quando extraía pedras para o siuuteneto da família.

O que Serra Nova precisa é de planejamento inteligente. Capacitação profissional para os moradores, incentivo ao turismo de base comunitária, regulamentação responsável das atividades tradicionais e, sobretudo, infraestrutura. Na foto abaixo: Seu Delfino Moreira

É fundamental viabilizar a pavimentação asfáltica ligando a sede de Rio Pardo de Minas até aquele espaço de beleza exuberante. Uma estrada estruturada não é apenas conforto: é desenvolvimento. É fluxo turístico. É oportunidade para pousadas familiares, restaurantes, guias locais, artesanato, agroindústrias e geração de renda sustentável.

Serra Nova é um patrimônio natural. Mas também é um patrimônio humano.
Preservar a natureza e fortalecer o povo não são objetivos opostos — são complementares. Quando o Estado compreende isso, nasce o verdadeiro desenvolvimento sustentável. Quando ignora, deixa cicatrizes.
O sertanejo não quer conflito. Quer oportunidade. E Serra Nova pode — e deve — ser exemplo de que é possível proteger, produzir e prosperar ao mesmo tempo.




