Por Aurélio Vidal
Ontem, sexta feira (03/04), mais uma vez, me deixei conduzir pelos caminhos da fé ao acompanhar a tradicional procissão rumo ao São Geraldo II, em Montes Claros. Não foi apenas uma caminhada — foi um reencontro com a essência de um povo que transforma dor em devoção e cansaço em esperança.

Ainda nas primeiras horas da manhã, quando o sol ensaia sua chegada tímida, a movimentação já tomava conta da Paróquia do Santo Expedito. Dali, partimos. Eu, como jornalista e, acima de tudo, como alguém que conhece e sente o pulsar desse chão, segui junto a uma multidão silenciosa e, ao mesmo tempo, profundamente eloquente em sua fé. Vindos do Grande Major Prates, do Maracanã e de tantos outros cantos da cidade, os passos se alinhavam numa só direção: o encontro com o sagrado.

Ao longo dos cerca de 14 quilômetros, não vi apenas pessoas — vi histórias sendo carregadas. Cruzes erguidas não apenas de madeira, mas de vivências, de lutas e de promessas sussurradas entre uma oração e outra. Cada parada, cada encenação da Paixão de Cristo, era um convite à reflexão, um mergulho naquilo que nos humaniza.
Essa tradição, que hoje alcança seus 47 anos, nasceu da fé inquieta e perseverante de um homem simples e visionário: José Pinheiro Gonçalves. Zezinho de Sansão, como era conhecido, não apenas criou uma procissão — ele semeou um legado. Um homem que também levou multidões em romarias a destinos como Bom Jesus da Lapa e Santa da Pedra, e que hoje permanece vivo na memória e na fé de cada peregrino que insiste em caminhar.

No meio da multidão, encontrei rostos que traduzem o verdadeiro sentido dessa jornada. O casal Francisco e Valdete, presença fiel ano após ano, caminhava com a serenidade de quem entende que fé também é constância. Ao lado deles, os pequenos Rafael e Miguel, com os olhos brilhando, carregavam não apenas a curiosidade da infância, mas a semente de uma tradição que insiste em não morrer.

E então, como um símbolo vivo do tempo e da resistência, lá estava seu Osvaldo. Prestes a completar 89 anos, com a firmeza de quem já enfrentou a dureza da vida como vaqueiro nas terras de Milton Prates e Dona Genoveva, ele seguia. Passo a passo. Sem pressa, sem alarde — apenas fé. Daquelas que não se explicam, apenas se vivem.

Ao chegar ao São Geraldo II, onde as encenações ganham corpo e emoção na praça, compreendi mais uma vez que essa procissão não é apenas um evento da Arquidiocese de Montes Claros. É um patrimônio imaterial de um povo. Um testemunho coletivo de crença, resistência e identidade Ttendo como palco final, a pequena capela da Paróquia São João Paulo II.
E eu sigo registrando. Não apenas com palavras, mas com o compromisso de dar voz a essas manifestações que traduzem, com tanta verdade, a alma do nosso sertão.




