Por Aurélio Vidal
Chega um ponto em que o jornalismo não pode mais se limitar à descrição fria dos fatos. Há momentos em que calar é compactuar. O caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, o colapso do Banco Master e os contratos milionários firmados com escritórios ligados à família de um ministro do Supremo Tribunal Federal ultrapassa qualquer limite razoável de normalidade institucional.
Em 2025, enquanto o Banco Master afundava sob investigações, intervenção do Banco Central e a prisão temporária de seu controlador, cerca de R$ 500 milhões foram direcionados a escritórios de advocacia. Não falo aqui de honorários comuns. Falo de cifras obscenas, concentradas, e firmadas no pior momento da crise, quando o banco já era um problema para o sistema financeiro nacional.

Entre todos esses contratos, um escancara o abismo ético em que nos encontramos: o acordo com o escritório Barci de Moraes Advogados, administrado pela esposa do ministro Alexandre de Moraes e pelos filhos do casal. R$ 3,6 milhões por mês, durante três anos. Um contrato que pode chegar a R$ 129 milhões. Até outubro de 2025, R$ 79 milhões já haviam sido pagos.
Não, isso não é “mera coincidência”.
Não, isso não é “normalidade de mercado”.
E não, a sociedade não é obrigada a aceitar explicações genéricas quando o que está em jogo é a credibilidade da mais alta Corte do país.
Ainda que o ministro negue qualquer interferência direta, o problema vai além da legalidade formal. Trata-se de moralidade pública, decoro institucional e confiança social. Em qualquer democracia minimamente saudável, a aparência de conflito de interesses já exigiria afastamento, investigação profunda e transparência absoluta. No Brasil, exige-se silêncio — e submissão.
O mais grave é que esse episódio não ocorre no vazio. Ele se encaixa perfeitamente em um cenário maior, marcado por relações promíscuas entre poder econômico, Judiciário e governo federal. Um ambiente onde o Executivo torra recursos públicos para comprar governabilidade, inflar emendas, blindar aliados e sufocar sistematicamente qualquer tentativa de investigação parlamentar, especialmente as CPMIs.
As conexões são evidentes. Os freios institucionais estão sendo corroídos. O Congresso, em boa parte, foi domesticado. O Judiciário, blindado por si mesmo. E o cidadão, tratado como espectador passivo de um jogo de cartas marcadas.
O Supremo Tribunal Federal não é uma entidade sagrada. É uma instituição pública, sustentada pelo povo e submetida — sim — ao escrutínio público. Blindar ministros, silenciar questionamentos e criminalizar críticas não fortalece a democracia; a destrói.
Este não é um ataque pessoal. É um grito contra a normalização do absurdo. É um alerta de que estamos atravessando uma linha perigosa, onde o poder deixa de prestar contas e passa a se proteger em circuito fechado.
Se contratos milionários entre banqueiros investigados e familiares de ministros não despertam indignação institucional, então algo está profundamente errado. Se CPMIs são barradas para evitar perguntas, é porque há medo das respostas. Se o silêncio vira regra, a corrupção deixa de ser exceção e passa a ser método.
Este texto não pede licença.
Não faz reverência.
Não aceita intimidação.
Porque democracia não sobrevive onde o poder não admite ser questionado.
E o jornalismo que se cala diante disso abandona sua própria razão de existir.




