BARRAGEM DA CAATINGA: VÃO ESVAZIAR TAMBÉM A ESPERANÇA DO POVO SERTANEJO?

Ao longo de décadas percorrendo os sertões do Norte de Minas, ouvindo agricultores, registrando histórias e acompanhando de perto os dramas e desafios da nossa gente, aprendi uma lição simples: para quem vive nesta região, água não é apenas um recurso natural. Água é sobrevivência. É dignidade. É desenvolvimento. É futuro. Por isso, recebi com profunda preocupação a notícia da decisão da Justiça Federal que determinou o esvaziamento e o descomissionamento da Barragem da Caatinga, localizada em Engenheiro Dolabela, distrito de Bocaiúva.

Por Aurélio Vidal

Ao longo de décadas percorrendo os sertões do Norte de Minas, ouvindo agricultores, registrando histórias e acompanhando de perto os dramas e desafios da nossa gente, aprendi uma lição simples: para quem vive nesta região, água não é apenas um recurso natural. Água é sobrevivência. É dignidade. É desenvolvimento. É futuro.

Por isso, recebi com profunda preocupação a notícia da decisão da Justiça Federal que determinou o esvaziamento e o descomissionamento da Barragem da Caatinga, localizada em Engenheiro Dolabela, distrito de Bocaiúva.

A Barragem da Caatinga não se tornou um problema da noite para o dia. Os relatórios técnicos que hoje justificam o esvaziamento são resultado de anos de negligência administrativa e da ausência de investimentos em manutenção preventiva.

Foi justamente por esse motivo que peguei a estrada mais uma vez em busca de respostas. Nesta quarta-feira, estive em Engenheiro Dolabela para compreender melhor os impactos e ouvir aqueles que convivem diariamente com a realidade daquela barragem.

Evidentemente, ninguém pode ignorar os laudos técnicos que apontam riscos estruturais na obra. A segurança das famílias que vivem no entorno deve ser prioridade absoluta. Isso é inquestionável.

O que me preocupa, entretanto, é que, mais uma vez, o sertanejo parece ser chamado a pagar a conta de décadas de abandono, omissão e falta de planejamento por parte do poder público.

A pergunta que precisa ser feita é simples: por que chegamos a esse ponto?

A Barragem da Caatinga não se transformou em um problema da noite para o dia. Os relatórios técnicos que hoje justificam o esvaziamento são resultado de anos de negligência administrativa e da ausência de investimentos em manutenção preventiva.

Ao longo da minha trajetória, visitei inúmeras vezes obras como Jequitaí e Berizal. Vi de perto estruturas que consumiram milhões de reais dos cofres públicos e que, por diferentes razões, ficaram pelo caminho. Conversei com agricultores, lideranças e moradores que aguardam há décadas por investimentos capazes de transformar a realidade da região.

Foi exatamente isso que me relatou Dona Nina, de 75 anos, moradora do assentamento localizado às margens da barragem. Acompanhada do filho, Francisco, ela demonstrou profunda preocupação com a medida.
“Se secar a lagoa, acabou tudo para nós”, disse.


Conversei também com Warley Souza, pequeno produtor rural que há 12 anos vive em sua propriedade na comunidade da Barragem da Caatinga. Ele relatou, de forma bastante indignada, sua preocupação com a possível desativação do reservatório e os impactos que isso poderá causar à produção e à vida das famílias da região. à população.

Ao longo da minha trajetória, visitei inúmeras vezes obras como Jequitaí e Berizal. Vi de perto estruturas que consumiram milhões de reais dos cofres públicos e que, por diferentes razões, ficaram pelo caminho. Conversei com agricultores, lideranças e moradores que aguardam há décadas por investimentos capazes de transformar a realidade da região.

Agora, diante da deterioração da estrutura, a solução apresentada é simplesmente retirar a água e encerrar sua função.

Mas será que não deveríamos discutir também a recuperação da barragem?

Será que o Norte de Minas, uma das regiões mais castigadas pela seca em todo o Brasil, pode se dar ao luxo de perder um reservatório estratégico para sua segurança hídrica?

Falo com a experiência de quem percorreu inúmeras vezes obras inacabadas e verdadeiros monumentos ao desperdício espalhados pelo sertão.

Difícil será repor a água, a esperança e as oportunidades que ele representa para milhares de sertanejos.

E dessas perdas, infelizmente, o nosso povo já conhece bem o preço.

Visitei diversas vezes as obras da Barragem de Jequitaí. Estive em Berizal. Conversei com moradores, produtores rurais e lideranças comunitárias. Vi de perto estruturas abandonadas, equipamentos enferrujando sob o sol escaldante e milhões de reais consumidos sem que os benefícios prometidos chegassem à população.

Em cada uma dessas visitas ouvi relatos semelhantes: promessas grandiosas, discursos políticos e esperança. Depois, abandono.

O resultado é uma paisagem marcada por esqueletos de concreto corroídos pelo tempo e por sonhos interrompidos.

Enquanto isso, o povo continua enfrentando estiagens prolongadas, rios enfraquecidos e dificuldades para produzir.

O cenário torna-se ainda mais contraditório quando observamos outras barragens construídas na região.

A Barragem do Peão, em São João do Paraíso; a Barragem de Samambaia, em Águas Vermelhas; e a Barragem de Salinas representam investimentos significativos já realizados pelo poder público. Contudo, muitas dessas estruturas permanecem sem a devida outorga operacional para viabilizar plenamente o uso da água na irrigação e no fortalecimento da produção agrícola.

Ou seja, temos reservatórios construídos, mas subutilizados.

Temos obras iniciadas e abandonadas.

Temos barragens que poderiam impulsionar o desenvolvimento regional, mas permanecem presas à burocracia e à falta de vontade política.

E agora corremos o risco de perder também a Barragem da Caatinga.

O ambientalista e advogado Edivaldo Campos, representante do Comitê da Bacia Hidrográfica do Jequitaí, também alertou para a importância estratégica do reservatório na conservação dos recursos hídricos, na manutenção dos ecossistemas locais e na regularização da vazão do Rio Jequitaí.

Sua preocupação faz sentido.

Em um momento em que as mudanças climáticas ampliam os períodos de estiagem e aumentam a pressão sobre os recursos hídricos, destruir uma barragem sem esgotar todas as possibilidades de recuperação parece uma decisão que merece amplo debate público.

Não se trata de ignorar os riscos apontados pelos técnicos.

Trata-se de questionar se a única alternativa possível é o esvaziamento definitivo.

O Norte de Minas precisa de soluções estruturantes. Precisa de investimentos. Precisa de planejamento de longo prazo.

O que não podemos aceitar é continuar assistindo à repetição de um modelo em que obras públicas são iniciadas, abandonadas ou sucateadas até que a única saída seja decretar sua inutilidade.

O sertanejo já conhece demais essa história.

A cada barragem perdida, a cada projeto abandonado e a cada promessa não cumprida, não estamos apenas desperdiçando recursos públicos.

Estamos comprometendo o futuro de uma região inteira.

Por isso, antes que a Barragem da Caatinga se transforme em mais um capítulo do grande livro do abandono que assombra o Norte de Minas, é necessário que governos, órgãos ambientais, instituições técnicas e a própria sociedade discutam alternativas viáveis para sua recuperação.

Porque esvaziar um reservatório pode ser relativamente simples.

Difícil será repor a água, a esperança e as oportunidades que ele representa para milhares de sertanejos.

E dessas perdas, infelizmente, o nosso povo já conhece bem o preço.

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