Por Aurélio Vidal
Escrevo estas linhas do Norte de Minas, longe dos salões refrigerados de Brasília, onde decisões são tomadas em silêncio e os estragos só chegam depois — sempre para os mesmos. Aqui no Sertão, onde a sobrevivência exige lucidez e coragem, acompanhar o colapso do Banco Master não é apenas um exercício jornalístico: é um dever moral.
O que veio à tona com a liquidação do Master não pode ser tratado como mais um “caso bancário”. Estamos diante de um modelo de poder que se retroalimenta, se protege e se reinventa. Um sistema perverso que mistura política, finanças e toga — e que tem método, histórico e DNA.
Desde cedo, algo não fechava. Um banco pequeno, já marcado por problemas de gestão, de repente se transforma em protagonista nacional, expandindo operações, oferecendo crédito fácil e movimentando cifras incompatíveis com sua estrutura real. No Brasil de hoje, esse tipo de “milagre” raramente acontece sem bênção política.
A engrenagem começa a girar quando o Estado deixa de ser fiscalizador e passa a ser sócio informal do risco. Programas públicos, decretos administrativos e garantias oficiais passam a sustentar operações privadas duvidosas. O dinheiro que deveria proteger o servidor e o contribuinte vira lastro para aventuras financeiras — uma prática antiga, conhecida, mas nunca abandonada.
O que se seguiu foi a construção artificial de uma solidez inexistente. Títulos, fundos, papéis e números que só se sustentavam enquanto ninguém levantasse o tapete. Quando a realidade bateu à porta, o rombo já era bilionário. E, como sempre, não foi o andar de cima que sentiu primeiro.
Nesse momento, entra em cena o outro pilar desse sistema: a blindagem institucional. Investigações que avançavam sofreram freios bruscos, decisões passaram a tramitar sob sigilo absoluto e o debate público foi empurrado para fora da sala. No Brasil, sigilo demais quase sempre significa medo da luz.
As conexões entre interesses privados e figuras centrais do poder não são coincidência, tampouco “relações periféricas”. São vínculos que explicam por que certos processos nunca chegam ao fim e por que determinadas perguntas jamais são respondidas. Quando o Judiciário se confunde com o objeto que deveria julgar, a democracia entra em estado de coma.
No Executivo, o roteiro também não surpreende. Velhos personagens, conhecidos do noticiário econômico e político, reaparecem como “consultores”, “interlocutores” ou “pontes institucionais”, sempre muito bem remunerados. A lógica é simples: abrir portas, ganhar tempo e tentar empurrar o prejuízo para algum ente público. Se der certo, o sistema sobrevive. Se der errado, alguém será sacrificado.
E foi exatamente isso que vimos: reuniões fora da agenda, conversas reservadas e estratégias de sobrevivência sendo desenhadas quando o barco já fazia água. Quando não houve mais como salvar, iniciou-se o jogo de empurra. A culpa muda de endereço, mas nunca sai do condomínio do poder.
Do lado de cá, onde não há blindagem nem foro, sobra indignação. O mesmo país que pede paciência ao aposentado, que corta políticas essenciais e que cobra sacrifícios do povo, tolera diárias milionárias, consultorias extravagantes e silêncios convenientes. É um escárnio institucionalizado.
Como jornalista que atua fora dos grandes centros, sem patrocínio político, sem proteção partidária e sem compromisso com esse sistema, sigo fazendo o que sempre fiz: registrar, questionar e alertar. Muitas vezes sozinho. Quase sempre incomodando. Mas convicto de que o silêncio é o maior aliado da corrupção.
O caso Master não é um ponto fora da curva. Ele dialoga com escândalos passados, com métodos conhecidos e com a velha crença de que o poder tudo pode — inclusive reescrever a própria culpa. Mensalão, petrolão, agora um novo nome, a mesma engrenagem.
Enquanto isso, o povo do Sertão, das periferias, do interior esquecido, segue pagando a conta. Não em bilhões de reais, mas em falta de segurança, inflação alta, serviços precários e um sentimento crescente de abandono.
Este texto não é apenas denúncia. É um chamado à consciência. Porque quando a sociedade naturaliza o absurdo, o sistema vence. E quando a imprensa se cala ou se rende, o Brasil perde mais uma vez.
Não podemos aceitar que o crime governe travestido de normalidade.




