Um acidente histórico ocorrido no dia 8 de janeiro de 1970, vitimou fatalmente 23 vidas na rodagem próximo a Mirabela.
Por Aurélio Vidal
Escrevo estas linhas com o peso do silêncio que ainda ecoa nas estradas do Norte de Minas. Em minhas andanças pelo sertão, aprendi que há lugares onde o chão guarda mais do que poeira: guarda histórias, lágrimas e lembranças que o tempo insiste em não apagar. Um desses lugares está próximo a Mirabela, numa curva que parece comum aos olhos apressados, mas que carrega uma das páginas mais dolorosas da nossa memória coletiva.
O dia, 8 de janeiro de 1970, quando a “rodagem” ainda era de terra batida, uma tragédia interrompeu sonhos e destinos. Um ônibus da antiga Expresso Santana — a jardineira que fazia o trajeto entre Montes Claros e São Francisco — encontrou-se, de forma fatal, com um caminhão carregado de cachaça. O choque, violento e inesperado, transformou aquela manhã em luto. Vinte e três pessoas perderam a vida ali, às portas de Mirabela, deixando um rastro de comoção que atravessou gerações.

O DESASTRE
O acidente ocorreu quando o caminhão Chevrolet, de placa 1-56-65-09, da cidade de Presidente Pludente – SP, ultrapassou em alta velocidade dois caminhões indo de encontro ao ônibus da empresa Santana, de placa 89-69-23, quebrando as garrafas de aguardentes e provocando o incêndio. Toda a polícia de Montes Claros foi mobilizada pelo delegado Vasco Coutinho de Lacerda para prestar socorro ás vítimas. São 23 mortos sem condições de identificação porquê até os documentos foram consumidos pelo fogo, e 10 sobreviventes, 6 em estado gravíssimos sendo atendidos nos hospitais São Vicente e Pio XII, em Montes Claros.
O caminhão seguia a fazia mais 70 quilômetros horário, e seu motorista conseguiu evadir-se, enquanto o motorista do ônibus Valter de Souza Cardoso, mesmo gravemente ferido, conseguiu salvar nove pessoas vindo a falecer mais tarde em Montes Claros.
SOBREVIVENTES
São os seguintes os sobreviventes: Eurico Reis de Souza, 24 anos, trocador do ônibus incendiado; José Pereira dos Santos; Francisca Barbosa, 21 anos; Maria Antônia de Macedo; Dilaide Ferreira Macedo de 9 anos; Francisco Rodrigues da Silva; Francisco José Barbosa; Sebastião Pereira da Silva; Noel Rocha e Abraão Rocha. As vítimas do acidentes segundo informações chegadas à Belo Horizonte, são procedentes em sua maioria de Montes Claros, Mirabela, Brasília de Minas e São Francisco.
Os relatos da época falam de um cenário difícil de compreender, de passageiros que não puderam ser reconhecidos, de famílias que choraram sem despedida, de um sertão inteiro que se curvou diante da dor. Apenas nove pessoas conseguiram escapar. Entre elas, a história de bravura do motorista do ônibus, Valter de Souza Cardoso, que mesmo gravemente ferido, ainda conseguiu salvar vidas antes de não resistir mais tarde, em Montes Claros. Seu gesto permanece como um sopro de humanidade em meio ao caos.
O caso ganhou as páginas do Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, na edição nº 25.538, de 9 de janeiro de 1970. O jornal registrou com precisão o ocorrido, citando nomes, circunstâncias e a mobilização das autoridades para socorrer os sobreviventes. Aquela notícia, impressa em papel, ajudou a eternizar um fato que o sertão jamais esqueceu — especialmente porque a maioria das vítimas era gente da própria região: de Montes Claros, Mirabela, Brasília de Minas, São Francisco. Gente simples, rostos conhecidos, histórias interrompidas.
A OMISSÃO
Mas há um ponto dessa história que ainda causa indignação e revolta. O motorista do caminhão carregado de cachaça — peça central na origem do acidente — fugiu do local, omitindo-se diante da tragédia que ajudou a provocar. Enquanto famílias choravam seus mortos e feridos lutavam pela vida, ele escolheu a covardia do desaparecimento. Essa omissão também faz parte da história e precisa ser dita, porque a memória não pode ser seletiva nem conivente.
Anos se passaram, o asfalto chegou, o fluxo de veículos aumentou, mas a curva continua ali — silenciosa, vigilante. À sua margem, a pequena capela, conhecida como igrejinha dos queimados, permanece como símbolo de fé, dor e lembrança. Quem passa apressado talvez não perceba, mas ali o sertão pede respeito. Pede pausa. Pede memória.
Hoje, quem passa pela BR-135, pouco antes de chegar a Mirabela, avista uma pequena capela às margens da estrada. Muitos a chamam de “igrejinha dos queimados”. Ela não está ali por acaso. É um marco de fé, de respeito e de lembrança. Um convite silencioso à reflexão. Cada tijolo parece dizer que aquela curva não é apenas geográfica — é também uma curva na história do Norte de Minas.
A construção da Igrejinha dos Queimados
A história da Igrejinha dos Queimados, nas proximidades de Mirabela, é tecida com fios de fé, persistência e profundo espírito comunitário. Sua origem nasce do coração de Dona Maria Antônia Mendes Aquino, carinhosamente chamada de Dona Nenzinha — uma mulher de devoção silenciosa, força serena e amor incansável pelo próximo.
Dona Nenzinha (vestido azul) partiu no dia 12 de janeiro de 2024, aos 103 anos
Segundo relatos de sua irmã, Dona Aparecida, hoje com 89 anos, que nos recebeu em sua casa na área central da cidade, foi Dona Nenzinha quem mobilizou Mirabela em torno do sonho de erguer a capela em homenagem às vítimas daquele trágico acidente. Um sonho que não se apoiava em grandes recursos, mas em pequenas ações repetidas com fé. Para arrecadar dinheiro, organizava bazares de roupas usadas na calçada em frente ao Banco do Brasil, promovia bingos, leilões, fazia pedágios e tudo o que estivesse ao alcance de suas mãos.
Muitas vezes, percorria longos caminhos sob o sol do sertão, levando na cabeça e nos braços gamelas com comida, merenda e água para os voluntários que ajudavam na obra. Cada passo era um gesto de devoção; cada sacrifício, uma oração em movimento. A construção levou meses, mas jamais perdeu o ritmo da esperança.
Concluída a capela, Dona Nenzinha, junto à Igreja, passou a promover missas no local. As celebrações, realizadas sempre na terceira semana de outubro — em honra à padroeira Nossa Senhora Aparecida — atraíam verdadeiras multidões. Vinham pessoas de diversas localidades, unidas pela fé e pelo respeito à memória. Ali se fortaleciam laços, se partilhavam silêncios e se renovava a convivência.
Entre os frequentadores assíduos estava Seu Chicão, sobrevivente daquele tempo doloroso, presença constante nos encontros promovidos por Dona Nenzinha, testemunha viva da força daquela tradição e da resistência da memória.
A guerreira teve vida longa. Dona Nenzinha partiu no dia 12 de janeiro de 2024, aos 103 anos, deixando como legado não apenas uma igrejinha erguida com esforço coletivo, mas um exemplo luminoso de amor à fé, à cultura e à comunidade. Sua história permanece viva nas paredes simples da capela e no coração do povo de Mirabela.
Como jornalista e pesquisador, mas sobretudo como sertanejo, sinto que registrar essa tragédia é mais do que narrar um fato: é um gesto de memória e de justiça. O sertão nos ensina que lembrar é uma forma de cuidar. E enquanto houver alguém disposto a contar essa história, aquelas 23 vidas seguirão presentes — caminhando comigo, e com todos nós, pelas estradas do tempo.




