Por Aurélio Vidal – Jornalista
Há lugares que simplesmente ocupam um espaço na cidade. E há lugares que parecem guardar a própria alma de um povo.
Foi com essa sensação que estive, na noite desta terça-feira, 11 de agosto, na inauguração do Memorial do Cooperativismo, instalado no Centro Cooperativo Heli Penido, em Montes Claros. Confesso que saí de lá impactado, não apenas pela beleza e pela organização do evento, mas, principalmente, pelo significado histórico daquilo que o Sicoob Credinor está entregando à sociedade.

Como jornalista e alguém que há décadas procura pautar o nosso sertão, suas histórias, suas pessoas e suas conquistas, encontrei naquele espaço muito mais do que documentos, fotografias e objetos antigos. Encontrei memória. Encontrei identidade. Encontrei parte da trajetória de uma região que aprendeu, muitas vezes enfrentando enormes dificuldades, que a união pode ser uma poderosa ferramenta de transformação.
E o local escolhido não poderia ser mais simbólico.
O Memorial está instalado no Centro Cooperativo Heli Penido, em um anexo da sede do Sicoob Credinor, justamente em uma área cercada por referências que também fazem parte da memória de Montes Claros e do Norte de Minas: a antiga rodoviária, testemunha de tantas chegadas e partidas, e a antiga estação ferroviária, por onde passou o saudoso trem de passageiros.

Ali, pertinho da Praça Raul Soares, passado e presente parecem conversar.
De um lado, as lembranças de um tempo em que o trem cortava os sertões. Do outro, a história de uma instituição que nasceu da necessidade de fortalecer o homem do campo e que, ao longo de quatro décadas, se transformou em uma das importantes referências do cooperativismo de crédito regional.
Uma história que nasceu da força do campo

Uma das coisas que mais me chamou a atenção durante a visita foi perceber que a história da Credinor está profundamente ligada à própria história do setor rural norte-mineiro.
A Cooperativa Agropecuária Regional de Montes Claros — Coopagro, fundada em 11 de junho de 1973, teve papel importante nesse processo e está entre as raízes que ajudaram a criar as condições para o surgimento da Credinor.
A então Cooperativa de Crédito Rural de Montes Claros nasceu em 1985 com o propósito de atender principalmente a classe rural, oferecendo aos produtores uma alternativa de organização financeira baseada na cooperação.
E o Memorial consegue resgatar justamente essas conexões.
Entre os materiais expostos, há verdadeiras relíquias que ajudam a compreender essa trajetória. Entre elas, relatos e imagens da inauguração da primeira agência da Credinor registrados pelo antigo jornal da Coopagro, uma publicação cujo nome também carrega um capítulo curioso da história regional: “Iogurte”, uma homenagem ao laticínio que era o carro-chefe daquela cooperativa agropecuária.

Para quem gosta de história, jornalismo e memória, encontrar esse tipo de material é quase como abrir uma janela para o passado.
São documentos que sobreviveram ao tempo e que agora ganham novamente luz.
Antes da solenidade, a imprensa teve acesso à história
Outro momento importante daquela noite aconteceu antes da cerimônia de inauguração, quando profissionais da imprensa participaram de uma coletiva realizada na área externa do Centro Cooperativo Heli Penido.
O presidente do Sicoob Credinor, Dario Colares, foi um dos protagonistas desse encontro, ao lado de Marcos Arruda, responsável pelo departamento de Comunicação e Marketing da instituição e um dos principais responsáveis pelas pesquisas, levantamento e prospecção dos materiais que hoje integram o Memorial.
Foi uma oportunidade para conhecer um pouco dos bastidores de um trabalho que, muitas vezes, não aparece aos olhos do público.
Porque preservar quatro décadas de história não significa simplesmente colocar objetos antigos atrás de uma vitrine.
É preciso pesquisar, localizar documentos, ouvir pessoas, confrontar informações, identificar personagens, recuperar fotografias e reconstruir acontecimentos.
É preciso, sobretudo, ter paciência para procurar aquilo que o tempo tentou esconder.
E foi exatamente esse trabalho que ajudou a dar vida ao Memorial.
Uma noite para celebrar quem construiu essa história
A inauguração foi prestigiadíssima e reuniu cerca de 400 pessoas entre autoridades, convidados, cooperados, homenageados, dirigentes, colaboradores e profissionais da imprensa.
Entre os presentes estavam o secretário de Agricultura de Montes Claros, Osmani Barbosa, representando o prefeito Guilherme Guimarães; Ronaldo Mota, o Ronaldinho, representando seu filho, o presidente da AMAMS, Ronaldo Soares Mota Dias; Vitor Oliveira, o Vitão, presidente do North Esporte Clube; Maurício Sérgio, Diretor da Santa Casa de Montes Claros; além de diversas outras autoridades e personalidades de nossa cidade e região.
A estrutura externa preparada para receber os convidados estava impecável e criou um ambiente à altura da importância daquele momento.
O serviço de buffet assinado pela Lilia Buffet também contribuiu para coroar uma noite marcada pelo encontro, pela confraternização e pelo reconhecimento.
Mas, para mim, a verdadeira festa estava dentro do Memorial.
Estava nas fotografias.
Nos documentos.
Nas antigas publicações.
Nas histórias dos fundadores.
Nos registros de uma época em que o Norte de Minas começava a construir, com as próprias mãos, novos caminhos para o desenvolvimento.
Meu reconhecimento ao Sicoob Credinor
Aproveito este espaço para, em nome do presidente Dario Colares, nosso amigo, parabenizar toda a diretoria e os colaboradores do Sicoob Credinor pela iniciativa.
Uma instituição que preserva sua história demonstra respeito por aqueles que vieram antes e responsabilidade com aqueles que ainda virão.
E é justamente isso que percebi naquela noite.
O Memorial não olha apenas para os 40 anos que passaram. Ele aponta também para os próximos capítulos.
Como jornalista, confesso que fiquei especialmente tocado porque minha caminhada profissional sempre esteve ligada à tarefa de pautar o nosso sertão.
Tenho percorrido estradas, comunidades, cidades e rincões em busca de histórias que muitas vezes não chegam aos grandes centros. E, quando encontro uma iniciativa que valoriza a memória, a cultura, o trabalho e a identidade do nosso povo, não poderia deixar de registrar.
O sertão também escreve sua própria história
Existe uma tendência de imaginar que as grandes histórias do cooperativismo brasileiro foram escritas somente longe daqui.
O Memorial mostra o contrário.
Nas veredas das Gerais, homens e mulheres também tiveram coragem de se organizar, confiar uns nos outros e construir instituições que atravessaram décadas.
A história da Credinor é também a história de uma geração que compreendeu que, no sertão, muitas vezes é preciso juntar forças para vencer as dificuldades.
E talvez seja essa a maior mensagem que aquele espaço transmite.
Cooperar é acreditar que ninguém precisa caminhar sozinho.
Quando deixei o Centro Cooperativo Heli Penido, fiquei olhando para aquelas antigas referências ao redor — a velha rodoviária, a estação ferroviária, a Praça Raul Soares — e pensei no quanto Montes Claros mudou.
Mas algumas coisas permanecem.
A memória.
A capacidade de sonhar.
A força de quem trabalha.
E a coragem de quem acredita que o sertão pode construir o próprio futuro.
O Sicoob Credinor fez sua parte ao transformar quatro décadas de história em um espaço aberto à sociedade.
Agora, cabe a nós visitar, conhecer, pesquisar e contar.
Porque um povo que preserva sua memória não apenas olha para trás. Ele encontra no passado a força necessária para seguir em frente.
E, no sertão, onde tantas histórias ainda aguardam para serem contadas, preservar a memória é também uma forma de plantar futuro.




