Por Aurélio Vidal – Jornalista e Pesquisador
Na manhã desta quinta-feira, estive novamente no distrito de Engenheiro Dolabela, município de Bocaiúva, para acompanhar uma manifestação popular contra a decisão que determina o esvaziamento e o descomissionamento da Barragem da Caatinga. Mais uma vez, deixei o local com um profundo sentimento de preocupação diante dos rumos que vêm sendo adotados pelo poder público em relação ao meio rural e aos recursos hídricos do Norte de Minas.

Às margens da barragem, dezenas de moradores, produtores rurais, lideranças comunitárias e representantes da sociedade civil se reuniram para defender aquele que consideram um dos mais importantes patrimônios hídricos da região. O clima era de indignação, mas também de união e resistência. Para quem vive no sertão, água representa muito mais do que um recurso natural: significa produção, segurança alimentar, desenvolvimento e esperança.
A mobilização ocorreu após a Justiça Federal determinar o esvaziamento e o descomissionamento da Barragem da Caatinga, atendendo a uma ação do Ministério Público Federal (MPF). A decisão, assinada pelo juiz federal Paulo Máximo de Castro Cabacinha no último dia 11 de junho, estabelece que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) apresente, no prazo de quinze dias, um plano para o descomissionamento da estrutura, mantendo as comportas totalmente abertas durante todo o processo.

Segundo a decisão judicial, a medida foi baseada em laudos técnicos elaborados pelo próprio Incra e pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), que apontam problemas estruturais considerados capazes de oferecer riscos à população e ao meio ambiente.
Entretanto, entre os moradores de Dolabela e das comunidades vizinhas, prevalece um entendimento diferente. Muitos reconhecem a necessidade de garantir a segurança da barragem, mas questionam por que a solução escolhida foi eliminar um reservatório estratégico, em vez de investir em sua recuperação, reforço estrutural e modernização.
Em uma das regiões mais castigadas pelas secas no Brasil, a possibilidade de perder um importante reservatório de água desperta enorme apreensão. Pequenos produtores temem prejuízos para a agricultura, para a pecuária e para o abastecimento das propriedades rurais. Também há preocupação com os impactos ambientais que poderão atingir nascentes, cursos d’água, fauna e flora locais.
Durante a manifestação, o que mais ouvi foi um apelo por diálogo. A população cobra transparência, estudos complementares e a análise de alternativas que conciliem segurança estrutural com a preservação dos recursos hídricos. Afinal, proteger vidas é indispensável, mas proteger a água também é uma questão de sobrevivência para quem vive no semiárido mineiro.

Ao acompanhar de perto essa realidade, não consigo esconder minha preocupação com o que considero uma sequência de decisões que vêm impondo enormes dificuldades ao setor produtivo rural. Tenho percorrido diversas comunidades do Norte de Minas e do Alto Rio Pardo e testemunhado a crescente insegurança vivida por agricultores e pecuaristas, que se sentem cada vez mais pressionados por medidas que, muitas vezes, parecem ignorar a realidade de quem vive e produz no sertão.

A manifestação desta quinta-feira demonstrou que a luta da população vai muito além da defesa de uma barragem. Trata-se da defesa da água, da produção rural, da permanência das famílias no campo e do futuro de uma região que há décadas enfrenta os desafios impostos pela escassez hídrica.
O povo sertanejo deixou um recado claro: deseja segurança, mas também quer que todas as alternativas para preservar esse patrimônio hídrico sejam devidamente estudadas antes que uma decisão definitiva transforme, de forma irreversível, a paisagem e a vida de milhares de pessoas.




