QUANDO O RÁDIO FALAVA E A CIDADE PARAVA: MEMÓRIAS SONORAS DE MONTES CLAROS

Sempre que penso na trajetória de Montes Claros, inevitavelmente minha imaginação volta ao tempo em que a cidade acordava com o som de um aparelho de válvulas e dormia com a voz de um locutor ecoando pela madrugada. Era um período em que o rádio não era apenas um meio de comunicação — era companhia, era notícia, era emoção.

Por Aurélio Vidal

Há histórias que não vivem apenas nos livros. Elas moram no ar. Ou melhor: nas ondas do rádio.

Sempre que penso na trajetória de Montes Claros, inevitavelmente minha imaginação volta ao tempo em que a cidade acordava com o som de um aparelho de válvulas e dormia com a voz de um locutor ecoando pela madrugada. Era um período em que o rádio não era apenas um meio de comunicação — era companhia, era notícia, era emoção.

Foi nesse cenário que nasceu, em 1944, a lendária Rádio Sociedade ZYD7, fruto da iniciativa de um grupo de montes-clarenses com apoio do político paulista Adhemar de Barros. Mais tarde, a emissora passaria para as mãos do empresário João Saad, que ajudaria a fortalecer a estrutura da rádio e ampliar sua presença no Norte de Minas.

Mas, muito além de seus donos, a verdadeira força da ZYD7 sempre esteve em seus microfones.

Dali surgiram vozes que marcaram época e também nomes que migraram para a vida pública. Radialistas e comunicadores que se tornaram vereadores e líderes políticos, mostrando que o rádio também era uma escola de cidadania. Entre eles estavam Elias Siufi que foi um dos fundadores, José Vicente, Eduardo Lima, José Nardel, Benedito Said e o próprio Luís Tadeu Leite, que mais tarde se destacaria na política regional.


Foi nesse cenário que nasceu, em 1944, a lendária Rádio Sociedade ZYD7, fruto da iniciativa de um grupo de montes-clarenses com apoio do político paulista Adhemar de Barros. Mais tarde, a emissora passaria para as mãos do empresário João Saad, que ajudaria a fortalecer a estrutura da rádio e ampliar sua presença no Norte de Minas.

Eu gosto de imaginar como era aquela rotina.

A programação começava ainda de madrugada, por volta das cinco da manhã, e seguia até perto da meia-noite. Entre um programa sertanejo e outro musical, surgiam debates políticos, noticiários, orações e participações populares. Era como se a cidade inteira estivesse conectada por um fio invisível que passava pelos estúdios da D7.

E havia momentos em que Montes Claros literalmente parava.

Nas noites de apuração eleitoral, por exemplo, os rádios ficavam ligados nas salas, nas varandas e nos bares. A rapidez das informações transformava a emissora em referência regional. Para muitos, a verdade das urnas chegava primeiro pelo rádio.

Lembro-me bem de quando a rádio trazia as notícias sobre o emblemático caso do mecânico Teninha, desaparecido e morto por familiares de políticos tradicionais de Montes Claros — um episódio que chocou a cidade e repercutiu intensamente nos microfones da época.

Mas a ousadia da ZYD7 foi além das fronteiras do Norte de Minas.

Em 1976, a emissora entrou para a história do radialismo brasileiro ao realizar transmissões internacionais de futebol — algo raríssimo para uma rádio do interior naquela época. A cobertura da Taça Libertadores e de jogos de clubes brasileiros no exterior colocou Montes Claros no mapa da comunicação esportiva. A iniciativa chegou a receber elogios do consagrado locutor Jorge Cury, da Rádio Globo.

A programação também tinha espaço para o imaginário.

As radionovelas e o rádio-teatro mobilizavam famílias inteiras. Produções como o Grande Teatro D7, conduzido pelo radialista Ubirajara Toledo — o querido “Tio Bira” que  ingressou no quadro de locutores da rádio ZYD-7 em 1962 — transformavam o estúdio em palco de dramas, romances e aventuras. Com efeitos sonoros improvisados e trilhas gravadas em discos, os atores criavam mundos inteiros apenas com vozes e sons.

Era o teatro da imaginação.

Donas de casa, jovens sonhadores e até trabalhadores que voltavam cansados do dia encontravam naquele universo radiofônico uma espécie de refúgio emocional. O rádio tinha essa magia: permitia que cada ouvinte construísse suas próprias imagens.

Mas a ZYD7 também foi muito mais que entretenimento.

Seus microfones serviram para campanhas solidárias, mobilizações sociais e debates públicos importantes para o desenvolvimento de Montes Claros. Ali se discutiram projetos, reivindicações e sonhos coletivos — como a luta pela implantação da Faculdade de Medicina e melhorias na infraestrutura regional.

O rádio era, ao mesmo tempo, tribuna, palco e ponte.

Hoje, em tempos de redes sociais, streaming e informação instantânea, pode parecer difícil imaginar aquele poder quase mágico que o rádio exercia sobre as pessoas.

Mas quem viveu aquela época sabe.

Havia algo de profundamente humano naquelas vozes que atravessavam a noite sertaneja e chegavam às casas simples, às fazendas distantes e aos bairros da cidade.

E talvez seja por isso que, quando lembro da história da comunicação em Montes Claros, não penso apenas em tecnologia.

Penso em vozes.

Vozes como a do amigo Gelson Dias (GD), que nos tempos dourados do rádio informaram, emocionaram, mobilizaram e ajudaram a contar a história de uma cidade inteira. Grande GD! Personagem importante, a quem tive o privilégio de homenagear no Troféu Imprensa Norte de Minas e com quem me encontrei, alguns meses atrás, no estacionamento do Montes Claros Shopping.

Vozes que, de certa forma, ainda ecoam no tempo.

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