Por Aurélio Vidal
Há anos, o Consórcio Intermunicipal de Saúde da Rede de Urgência do Norte de Minas (Cisrun) opera sob uma névoa de opacidade administrativa. Por trás do discurso técnico e da retórica institucional, acumulam-se indícios graves de descontrole financeiro, aparelhamento político e possíveis irregularidades na gestão de recursos públicos destinados ao Samu, serviço essencial que atende 86 municípios da região.
Os números oficiais expõem a dimensão do problema. Levantamento disponível no sistema da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) revela que o Cisrun acumula uma dívida superior a R$ 114,6 milhões em débitos tributários e previdenciários. O passivo está fragmentado em 11 inscrições na dívida ativa, sendo que uma única delas se aproxima de R$ 40 milhões. Os dados são públicos, atualizados e incontestáveis.

O endividamento, por si só, já configuraria um quadro alarmante. No entanto, a situação se agrava diante das suspeitas de irregularidades administrativas que levaram o Ministério Público de Contas de Minas Gerais (MPC-MG) a instaurar inquérito para apuração de possíveis ilícitos na gestão do consórcio.
A investigação não trata de falhas pontuais. Apura indícios de funcionários fantasmas, pagamento em duplicidade de diárias, sobrepreço, além da criação e manutenção de cargos sem qualquer vínculo com a finalidade do consórcio, que é exclusivamente a gestão do Samu. Também estão sob análise nomeações em número superior ao permitido pelo Protocolo de Intenções — documento registrado em cartório e que deveria reger toda a estrutura administrativa do Cisrun.
Um dado emblemático escancara o problema: entre 2015 e o ano retrasado, o número de cargos comissionados saltou de 16 para 62, um crescimento de 275%. Não houve expansão proporcional dos serviços prestados que justifique tal aumento. O que se observa é um inchaço administrativo típico de estruturas capturadas por interesses políticos.
Desde sua criação, a atuação do Cisrun é marcada pela influência direta de um deputado federal do Partido dos Trabalhadores, figura recorrente nos bastidores da entidade. A condução política do consórcio, segundo relatos e documentos analisados, transformou a instituição em extensão de um projeto de poder, com cargos estratégicos ocupados por aliados e decisões distantes de critérios técnicos e do interesse público.

O inquérito do MPC-MG também apura pagamento de salários e gratificações fora do plano de cargos, reforçando a suspeita de desorganização administrativa deliberada — ou de algo mais grave.
No mês passado, o Ministério Público de Contas endureceu a postura e emitiu um verdadeiro ultimato ao Cisrun diante da reiterada omissão na entrega de documentos essenciais à investigação. Entre os itens não apresentados estão folhas de ponto de servidores investigados, notas de empenho e comprovantes de diárias pagas ao ex-prefeito de Juvenília e ex-presidente do consórcio, Rômulo Marinho Carneiro, no período de janeiro de 2023 a dezembro de 2024.
Também não foram encaminhados documentos relativos a contratos com fornecedores, notas de empenho e comprovantes de despesas dos últimos 12 meses. A ausência de respostas e documentos oficiais, em um contexto de investigação, não é mero descuido administrativo — é um sinal grave de resistência à fiscalização.
Nesta segunda feira (12/01), a nossa reportagem irá procurar o Cisrun para esclarecimentos sobre o passivo milionário registrado na PGFN e sobre os fatos investigados pelo Ministério Público de Contas. O espaço segue aberto.

Os fatos, porém, falam por si. Instituições públicas não podem ser transformadas em feudos políticos nem blindadas por silêncio institucional. O Samu existe para salvar vidas, não para sustentar esquemas de poder, loteamento de cargos ou práticas administrativas obscuras.
Quando estruturas públicas são capturadas e a transparência dá lugar à omissão, o jornalismo não pode recuar. Questionar, confrontar dados e expor irregularidades não é opção — é dever.




