Por Aurélio Vidal
Escrevo estas linhas com o peso de quem precisou revisitar a própria apuração. Ao longo dos anos, essa tragédia foi contada, recontada e, em alguns momentos, distorcida pelo tempo, pela memória fragmentada e pela ausência de testemunhos diretos. Agora, após ouvir um dos sobreviventes, compreendo melhor o que realmente aconteceu naquela curva próxima a Mirabela, no dia 8 de janeiro de 1970.
O sertão guarda histórias que não se deixam apagar. Há lugares em que o chão não sustenta apenas poeira, mas silêncios, lágrimas e lembranças. Um desses lugares está às margens da rodagem que liga Montes Claros a Mirabela — uma curva aparentemente comum, mas que carrega uma das páginas mais dolorosas da história do Norte de Minas.
Naquela manhã, quando a estrada ainda era de terra batida, um ônibus da antiga Viação Santana, a popular jardineira que fazia o trajeto entre Montes Claros e São Francisco, colidiu frontalmente com um caminhão carregado de cachaça. O impacto foi devastador. Vinte e oito pessoas perderam a vida, número confirmado pelo relato de um sobrevivente que carrega no corpo e na memória as marcas daquele dia.
O DESASTRE
Segundo registros da época e relatos colhidos posteriormente, o acidente ocorreu quando um caminhão Chevrolet, procedente de Januária, tentou ultrapassar outros veículos em alta velocidade, estimada em cerca de 70 km/h, invadindo a contramão e atingindo o ônibus da Viação Santana.
Com o choque, as garrafas de aguardente se quebraram, espalhando o líquido inflamável e provocando um incêndio de grandes proporções. O fogo consumiu rapidamente o veículo, impossibilitando a identificação imediata de muitas vítimas — até documentos pessoais foram destruídos pelas chamas.
A Polícia de Montes Claros foi mobilizada pelo então delegado Vasco Coutinho de Lacerda, e os sobreviventes foram encaminhados aos hospitais São Vicente e Pio XII. Ao todo, dez pessoas sobreviveram, sendo seis em estado gravíssimo.
O OLHAR DE QUEM SOBREVIVEU

Na tarde desta quinta-feira, 8 de janeiro, quando a tragédia completou 56 anos, tive a oportunidade de entrevistar Francisco José Barbosa, conhecido como Chicão da Sanfona, morador do bairro Santos Reis, em Montes Claros, e um dos sobreviventes daquele acidente.
Seu Chicão carrega cicatrizes de queimaduras pelo corpo, marcas que o tempo não apagou. Mais do que números ou registros oficiais, seu relato devolve humanidade ao fato: o caos, os gritos, a dificuldade de reconhecer corpos, famílias que nunca puderam se despedir.
Seu Chicão carrega as marcas no corpo
Segundo ele, foram exatamente 28 mortos — número que se manteve firme em sua memória ao longo de mais de cinco décadas. Apenas dez passageiros conseguiram escapar com vida. O restante ficou para sempre naquela curva.
Com extremo cuidado, quase como quem protege um relicário, Chicão preserva plastificado o bilhete de passagem da Expresso Santana, daquele dia trágico. Um pequeno pedaço de papel, que custou 7,15 cruzeiros, e que se tornou um dos mais silenciosos e dolorosos testemunhos de uma viagem que nunca chegou ao destino — mas que permanece viva na memória de quem escapou para contar.
As vítimas eram, em sua maioria, moradores de Montes Claros, Mirabela, Brasília de Minas e São Francisco. Gente simples. Gente conhecida. Histórias interrompidas de forma brutal.
A OMISSÃO QUE TAMBÉM FAZ PARTE DA HISTÓRIA
Há um ponto dessa tragédia que ainda provoca indignação. O motorista do caminhão conhecido pelo apelido de Fernando Risadinha— figura central na origem do acidente — evadiu-se do local. Enquanto famílias choravam seus mortos e feridos lutavam pela vida, ele escolheu o caminho da omissão.
Essa ausência de responsabilidade também precisa ser registrada. Memória não pode ser seletiva, nem conivente com o silêncio.
A IGREJINHA DOS QUEIMADOS: FÉ, DOR E MEMÓRIA
O tempo passou, o asfalto chegou, o fluxo de veículos aumentou. Mas a curva continua ali. Silenciosa. Vigilante.
À margem da atual BR-135, pouco antes de Mirabela, ergue-se uma pequena capela conhecida como Igrejinha dos Queimados. Ela não está ali por acaso. É símbolo de fé, respeito e lembrança. Um marco que transforma aquela curva não apenas em um ponto geográfico, mas em um lugar de memória coletiva.
A CONSTRUÇÃO DA CAPELA
A história da igrejinha é inseparável da trajetória de Dona Maria Antônia Mendes Aquino, a Dona Nenzinha, mulher de fé inabalável e profundo espírito comunitário.

Segundo sua irmã, Dona Aparecida, hoje com 89 anos, foi Dona Nenzinha quem mobilizou a comunidade para erguer a capela em homenagem às vítimas. Sem grandes recursos, organizava bazares, bingos, leilões e pedágios, tudo movido pela devoção.
Levava comida e água aos voluntários, caminhava sob o sol do sertão, transformando cada esforço em oração. Meses depois, a capela estava de pé — simples, mas carregada de significado.
Após a conclusão, Dona Nenzinha passou a promover missas anuais, sempre na terceira semana de outubro, em honra a Nossa Senhora Aparecida. As celebrações reuniam multidões e mantinham viva a memória dos que partiram.
Entre os frequentadores estava Seu Chicão, sobrevivente da tragédia, presença constante nos encontros e testemunha viva da força daquela tradição.
Dona Nenzinha faleceu em 12 de janeiro de 2024, aos 103 anos, deixando como legado não apenas uma capela, mas um exemplo de amor à fé, à cultura e à memória do povo de Mirabela.
MEMÓRIA É JUSTIÇA
Como jornalista e pesquisador, mas sobretudo como sertanejo, entendo que revisitar essa tragédia não é apenas narrar um fato histórico. É um gesto de responsabilidade, memória e justiça.
O sertão ensina que lembrar é cuidar.
E enquanto houver alguém disposto a contar essa história, as 28 vidas perdidas naquele 8 de janeiro de 1970 continuarão presentes, caminhando conosco pelas estradas do tempo — exigindo respeito, verdade e silêncio diante da dor.




