A TRAGÉDIA QUE MARCOU UMA GERAÇÃO: O ACIDENTE ENTRE O CAMINHÃO DE CACHAÇA E O ÔNIBUS DA VIAÇÃO SANTANA, EM 1970

O dia, 8 de janeiro de 1970, quando a “rodagem” ainda era de terra batida, uma tragédia interrompeu sonhos e destinos. Um ônibus da antiga Expresso Santana — a jardineira que fazia o trajeto entre Montes Claros e São Francisco — encontrou-se, de forma fatal, com um caminhão carregado de cachaça. O choque, violento e inesperado, transformou aquela manhã em luto. Vinte e três pessoas perderam a vida ali, às portas de Mirabela, deixando um rastro de comoção que atravessou gerações.

Por Aurélio Vidal

Escrevo estas linhas com o peso de quem precisou revisitar a própria apuração. Ao longo dos anos, essa tragédia foi contada, recontada e, em alguns momentos, distorcida pelo tempo, pela memória fragmentada e pela ausência de testemunhos diretos. Agora, após ouvir um dos sobreviventes, compreendo melhor o que realmente aconteceu naquela curva próxima a Mirabela, no dia 8 de janeiro de 1970.

O sertão guarda histórias que não se deixam apagar. Há lugares em que o chão não sustenta apenas poeira, mas silêncios, lágrimas e lembranças. Um desses lugares está às margens da rodagem que liga Montes Claros a Mirabela — uma curva aparentemente comum, mas que carrega uma das páginas mais dolorosas da história do Norte de Minas.

Naquela manhã, quando a estrada ainda era de terra batida, um ônibus da antiga Viação Santana, a popular jardineira que fazia o trajeto entre Montes Claros e São Francisco, colidiu frontalmente com um caminhão carregado de cachaça. O impacto foi devastador. Vinte e oito pessoas perderam a vida, número confirmado pelo relato de um sobrevivente que carrega no corpo e na memória as marcas daquele dia.

O DESASTRE

Segundo registros da época e relatos colhidos posteriormente, o acidente ocorreu quando um caminhão Chevrolet, procedente de Januária, tentou ultrapassar outros veículos em alta velocidade, estimada em cerca de 70 km/h, invadindo a contramão e atingindo o ônibus da Viação Santana.

Com o choque, as garrafas de aguardente se quebraram, espalhando o líquido inflamável e provocando um incêndio de grandes proporções. O fogo consumiu rapidamente o veículo, impossibilitando a identificação imediata de muitas vítimas — até documentos pessoais foram destruídos pelas chamas.

A Polícia de Montes Claros foi mobilizada pelo então delegado Vasco Coutinho de Lacerda, e os sobreviventes foram encaminhados aos hospitais São Vicente e Pio XII. Ao todo, dez pessoas sobreviveram, sendo seis em estado gravíssimo.

O OLHAR DE QUEM SOBREVIVEU

Na tarde desta quinta-feira, 8 de janeiro, quando a tragédia completou 56 anos, tive a oportunidade de entrevistar Francisco José Barbosa, conhecido como Chicão da Sanfona, morador do bairro Santos Reis, em Montes Claros, e um dos sobreviventes daquele acidente.

Seu Chicão carrega cicatrizes de queimaduras pelo corpo, marcas que o tempo não apagou. Mais do que números ou registros oficiais, seu relato devolve humanidade ao fato: o caos, os gritos, a dificuldade de reconhecer corpos, famílias que nunca puderam se despedir.

Na tarde desta quinta-feira, 8 de janeiro, quando a tragédia completou 56 anos, tive a oportunidade de entrevistar Francisco José Barbosa, conhecido como Chicão da Sanfona, morador do bairro Santos Reis, em Montes Claros, e um dos sobreviventes daquele acidente.

Seu Chicão carrega cicatrizes de queimaduras pelo corpo, marcas que o tempo não apagou. Mais do que números ou registros oficiais, seu relato devolve humanidade ao fato: o caos, os gritos, a dificuldade de reconhecer corpos, famílias que nunca puderam se despedir.

Seu Chicão carrega cicatrizes de queimaduras pelo corpo, marcas que o tempo não apagou. Mais do que números ou registros oficiais, seu relato devolve humanidade ao fato: o caos, os gritos, a dificuldade de reconhecer corpos, famílias que nunca puderam se despedir. Seu Chicão carrega as marcas no corpo

Segundo ele, foram exatamente 28 mortos — número que se manteve firme em sua memória ao longo de mais de cinco décadas. Apenas dez passageiros conseguiram escapar com vida. O restante ficou para sempre naquela curva.

Com extremo cuidado, quase como quem protege um relicário, Chicão preserva plastificado o bilhete de passagem da Expresso Santana, daquele dia trágico. Um pequeno pedaço de papel, que custou 7,15 cruzeiros, e que se tornou um dos mais silenciosos e dolorosos testemunhos de uma viagem que nunca chegou ao destino — mas que permanece viva na memória de quem escapou para contar. Com extremo cuidado, quase como quem protege um relicário, Chicão preserva plastificado o bilhete de passagem da Expresso Santana, daquele dia trágico. Um pequeno pedaço de papel, que custou 7,15 cruzeiros, e que se tornou um dos mais silenciosos e dolorosos testemunhos de uma viagem que nunca chegou ao destino — mas que permanece viva na memória de quem escapou para contar.

As vítimas eram, em sua maioria, moradores de Montes Claros, Mirabela, Brasília de Minas e São Francisco. Gente simples. Gente conhecida. Histórias interrompidas de forma brutal.

A OMISSÃO QUE TAMBÉM FAZ PARTE DA HISTÓRIA

Há um ponto dessa tragédia que ainda provoca indignação. O motorista do caminhão conhecido pelo apelido de Fernando Risadinha— figura central na origem do acidente — evadiu-se do local. Enquanto famílias choravam seus mortos e feridos lutavam pela vida, ele escolheu o caminho da omissão.

Essa ausência de responsabilidade também precisa ser registrada. Memória não pode ser seletiva, nem conivente com o silêncio.

A IGREJINHA DOS QUEIMADOS: FÉ, DOR E MEMÓRIA

O tempo passou, o asfalto chegou, o fluxo de veículos aumentou. Mas a curva continua ali. Silenciosa. Vigilante.

À margem da atual BR-135, pouco antes de Mirabela, ergue-se uma pequena capela conhecida como Igrejinha dos Queimados. Ela não está ali por acaso. É símbolo de fé, respeito e lembrança. Um marco que transforma aquela curva não apenas em um ponto geográfico, mas em um lugar de memória coletiva.

A CONSTRUÇÃO DA CAPELA

A história da igrejinha é inseparável da trajetória de Dona Maria Antônia Mendes Aquino, a Dona Nenzinha, mulher de fé inabalável e profundo espírito comunitário.

A história da igrejinha é inseparável da trajetória de Dona Maria Antônia Mendes Aquino, a Dona Nenzinha, mulher de fé inabalável e profundo espírito comunitário.

Segundo sua irmã, Dona Aparecida, hoje com 89 anos, foi Dona Nenzinha quem mobilizou a comunidade para erguer a capela em homenagem às vítimas. Sem grandes recursos, organizava bazares, bingos, leilões e pedágios, tudo movido pela devoção.

Segundo sua irmã, Dona Aparecida, hoje com 89 anos, foi Dona Nenzinha quem mobilizou a comunidade para erguer a capela em homenagem às vítimas. Sem grandes recursos, organizava bazares, bingos, leilões e pedágios, tudo movido pela devoção.

Levava comida e água aos voluntários, caminhava sob o sol do sertão, transformando cada esforço em oração. Meses depois, a capela estava de pé — simples, mas carregada de significado.

Após a conclusão, Dona Nenzinha passou a promover missas anuais, sempre na terceira semana de outubro, em honra a Nossa Senhora Aparecida. As celebrações reuniam multidões e mantinham viva a memória dos que partiram.

Entre os frequentadores estava Seu Chicão, sobrevivente da tragédia, presença constante nos encontros e testemunha viva da força daquela tradição.

Dona Nenzinha faleceu em 12 de janeiro de 2024, aos 103 anos, deixando como legado não apenas uma capela, mas um exemplo de amor à fé, à cultura e à memória do povo de Mirabela.

MEMÓRIA É JUSTIÇA

Como jornalista e pesquisador, mas sobretudo como sertanejo, entendo que revisitar essa tragédia não é apenas narrar um fato histórico. É um gesto de responsabilidade, memória e justiça.

O sertão ensina que lembrar é cuidar.
E enquanto houver alguém disposto a contar essa história, as 28 vidas perdidas naquele 8 de janeiro de 1970 continuarão presentes, caminhando conosco pelas estradas do tempo — exigindo respeito, verdade e silêncio diante da dor.

Veja Mais

Artigos Relacionados:

Centro de Grão Mogol, com a igreja e a praça da cidade.

Grão Mogol: a cidade das pedras e das águas encanta com sua história e belezas naturais

Localizada na parte mais alta da Serra Geral, no Norte de Minas Gerais, Grão Mogol é um destino que transborda belezas naturais, biodiversidade e uma rica herança ligada aos diamantes e ao período colonial dos séculos XVI e XIX. A história pulsante dessa cidade pode ser encontrada nas ruas e vielas, cuja pavimentação foi erguida com a mão de obra dos escravizados. Nas trilhas e

Nova Aurora, distrito de Rio Pardo de Minas, voltou a ser ponto de encontro do sertão neste último fim de semana, durante a 13ª Festa Municipal do Eucalipto, realizada nos dias 12 e 13. Organizada pela Prefeitura de Rio Pardo de Minas, em parceria com o Sindicato dos Produtores Rurais e a comunidade local, a festa reuniu música, gastronomia, esporte, produtores, trabalhadores e famílias em dois dias de confraternização.

NOVA AURORA: QUANDO O SERTÃO CELEBRA A FORÇA DO SEU POVO

Há lugares que a gente visita. E há lugares que, de alguma maneira, acabam visitando a nossa alma. Nova Aurora, distrito de Rio Pardo de Minas, é um desses lugares para mim. Desde que conheci essa terra, criei uma ligação especial com sua gente, sua paisagem e, principalmente, com as histórias que encontro por ali. Neste último fim de semana, nos dias 12 e 13,

Entre o medo do passado e os abusos do presente: por que eu não renego Ustra

Por Aurélio Vidal – Jornalista e Pesquisador Ontem, 15 de setembro, ao acompanhar mais um capítulo de enorme tensão envolvendo o Supremo Tribunal Federal, confesso que voltei meu pensamento para uma página muito mais antiga da história brasileira. E quanto mais observo o Brasil de hoje, mais percebo que existem acontecimentos do passado que precisam ser revisitados sem medo, sem patrulhamento ideológico e, principalmente, sem

Desde ontem, quarta-feira, até a tarde desta quinta-feira, minhas andanças me levaram mais uma vez pelas terras do Alto Rio Pardo . Desta vez, estive acompanhado do meu amigo, o jovem Gabriel Ribeiro , que, atendendo ao nosso convite, veio conhecer de perto a região de Nova Aurora .

O SERTÃO QUE PLANTA O PRÓPRIO FUTURO

Por: Aurélio Vidal Desde ontem, quarta-feira, até a tarde desta quinta-feira, minhas andanças me levaram mais uma vez pelas terras do Alto Rio Pardo . Desta vez, estive acompanhado do meu amigo, o jovem Gabriel Ribeiro , que, atendendo ao nosso convite, veio conhecer de perto a região de Nova Aurora . Gabriel aproveitou a viagem para colher informações, ouvir histórias e registrar depoimentos que

O Katyra Modão chegou em grande estilo, mas sem perder aquilo que talvez seja o seu maior diferencial: a simplicidade elegante do ambiente rural, o cheiro gostoso de roça, o verde, as flores espalhadas pelo jardim e aquele cenário rústico que parece conversar com a alma sertaneja. A fazenda, que já é palco da tradicional Cavalgada do Katyra, tem um charme muito particular. Cada cantinho parece ter sido pensado para acolher, mas sem deixar de ser aquilo que é: uma fazenda, com sua beleza natural e sua identidade.

KATYRA MODÃO E CHURRASCO — ONDE A VIOLA CANTA, A BRASA ACENDE E O SERTÃO SE ENCONTRA

Há lugares onde a gente vai para participar de um evento. E há lugares onde a gente chega e sente que está entrando em uma história. Foi assim ontem, na Fazenda Katyra, lá pelas bandas da comunidade de Canto do Engenho, em Montes Claros, onde aconteceu a primeira edição do Katyra Modão e Churrasco — uma iniciativa que, já em sua estreia, mostrou que tradição,

Centro de Grão Mogol, com a igreja e a praça da cidade.

Grão Mogol: a cidade das pedras e das águas encanta com sua história e belezas naturais

Localizada na parte mais alta da Serra Geral, no Norte de Minas Gerais, Grão Mogol é um destino que transborda belezas naturais, biodiversidade e uma rica herança ligada aos diamantes e ao período colonial dos séculos XVI e XIX. A história pulsante dessa cidade pode ser encontrada nas ruas e vielas, cuja pavimentação foi erguida com a mão de obra dos escravizados. Nas trilhas e

Nova Aurora, distrito de Rio Pardo de Minas, voltou a ser ponto de encontro do sertão neste último fim de semana, durante a 13ª Festa Municipal do Eucalipto, realizada nos dias 12 e 13. Organizada pela Prefeitura de Rio Pardo de Minas, em parceria com o Sindicato dos Produtores Rurais e a comunidade local, a festa reuniu música, gastronomia, esporte, produtores, trabalhadores e famílias em dois dias de confraternização.

NOVA AURORA: QUANDO O SERTÃO CELEBRA A FORÇA DO SEU POVO

Há lugares que a gente visita. E há lugares que, de alguma maneira, acabam visitando a nossa alma. Nova Aurora, distrito de Rio Pardo de Minas, é um desses lugares para mim. Desde que conheci essa terra, criei uma ligação especial com sua gente, sua paisagem e, principalmente, com as histórias que encontro por ali. Neste último fim de semana, nos dias 12 e 13,

Entre o medo do passado e os abusos do presente: por que eu não renego Ustra

Por Aurélio Vidal – Jornalista e Pesquisador Ontem, 15 de setembro, ao acompanhar mais um capítulo de enorme tensão envolvendo o Supremo Tribunal Federal, confesso que voltei meu pensamento para uma página muito mais antiga da história brasileira. E quanto mais observo o Brasil de hoje, mais percebo que existem acontecimentos do passado que precisam ser revisitados sem medo, sem patrulhamento ideológico e, principalmente, sem

Desde ontem, quarta-feira, até a tarde desta quinta-feira, minhas andanças me levaram mais uma vez pelas terras do Alto Rio Pardo . Desta vez, estive acompanhado do meu amigo, o jovem Gabriel Ribeiro , que, atendendo ao nosso convite, veio conhecer de perto a região de Nova Aurora .

O SERTÃO QUE PLANTA O PRÓPRIO FUTURO

Por: Aurélio Vidal Desde ontem, quarta-feira, até a tarde desta quinta-feira, minhas andanças me levaram mais uma vez pelas terras do Alto Rio Pardo . Desta vez, estive acompanhado do meu amigo, o jovem Gabriel Ribeiro , que, atendendo ao nosso convite, veio conhecer de perto a região de Nova Aurora . Gabriel aproveitou a viagem para colher informações, ouvir histórias e registrar depoimentos que

O Katyra Modão chegou em grande estilo, mas sem perder aquilo que talvez seja o seu maior diferencial: a simplicidade elegante do ambiente rural, o cheiro gostoso de roça, o verde, as flores espalhadas pelo jardim e aquele cenário rústico que parece conversar com a alma sertaneja. A fazenda, que já é palco da tradicional Cavalgada do Katyra, tem um charme muito particular. Cada cantinho parece ter sido pensado para acolher, mas sem deixar de ser aquilo que é: uma fazenda, com sua beleza natural e sua identidade.

KATYRA MODÃO E CHURRASCO — ONDE A VIOLA CANTA, A BRASA ACENDE E O SERTÃO SE ENCONTRA

Há lugares onde a gente vai para participar de um evento. E há lugares onde a gente chega e sente que está entrando em uma história. Foi assim ontem, na Fazenda Katyra, lá pelas bandas da comunidade de Canto do Engenho, em Montes Claros, onde aconteceu a primeira edição do Katyra Modão e Churrasco — uma iniciativa que, já em sua estreia, mostrou que tradição,

Quer ver mais conteúdos?

Assine Nossa Newsletter

E fique por dentro do contexto de Minas e de tudo que acontece no Brasil e no mundo.

Pod Sertão Pautando o melhor do Sertão Mineiro

Olá, visitante