REUNIÃO EM VARGEM GRANDE EXPÕE DRAMA DOS MULTADOS PELO ICMBIO

Saí da reunião com a certeza de que a situação é muito maior do que números em papéis oficiais. O que está em jogo é a sobrevivência de comunidades inteiras que vivem em harmonia com a terra há gerações. O sertanejo não pede privilégios; pede apenas justiça, equilíbrio e o direito de continuar vivendo do que planta e cria.

Por Aurélio Vidal

Na última segunda-feira (22/09), estive em Vargem Grande do Rio Pardo, no norte de Minas Gerais, acompanhando uma audiência que escancarou uma das maiores dores do nosso povo sertanejo: as multas milionárias aplicadas pelo ICMBio contra pequenos produtores rurais. Além das autuações, a discussão também girou em torno da necessidade urgente de reduzir a área de amortecimento da chamada Reserva de Desenvolvimento Sustentável Nascentes Geraizeiras — uma medida considerada vital para a sobrevivência de dezenas de comunidades que vivem do pouco que a terra oferece.

Agora, todas as esperanças estão depositadas na atuação da promotora Larissa Prado, que demonstrou sensibilidade diante do drama vivido pelas famílias e sinalizou interesse em defender o povo simples, que só deseja continuar existindo dignamente no sertão mineiro.

O encontro aconteceu na unidade da EMATER e reuniu um número expressivo de moradores, lideranças comunitárias, representantes políticos e famílias inteiras aflitas com essa realidade que considero cruel e profundamente injusta.

Minha trajetória nesse tema não começou ontem. Desde 2022, quando tomei conhecimento dos primeiros casos de agricultores multados de forma arbitrária, tenho denunciado esse verdadeiro cerco contra homens e mulheres simples, que já enfrentam, diariamente, a seca, a falta de infraestrutura e o abandono histórico do Estado. Agora, como se não bastasse, carregam nas costas multas que, somadas, ultrapassam a casa de um milhão de reais.

Na segunda-feira (22/09), acompanhei em Vargem Grande do Rio Pardo uma audiência marcada por denúncias de pequenos produtores rurais contra as multas milionárias aplicadas pelo ICMBio. Na foto: Dim, da comunidade Água Boa II (Rio Pardo de Minas), uma das muitas vítimas da opressão do ICMBio, ao lado de Francisco José (Chicão), voz firme e defensor incansável do povo sertanejo.

A reunião foi carregada de emoção. O sertanejo Francisco Barbosa Souza, de 70 anos, morador da comunidade da Fazenda Cabaça, em Montezuma, contou que foi surpreendido com uma multa de R$ 105 mil. Disse que perdeu a tranquilidade de viver e trabalhar, mergulhado em noites sem sono e dias de angústia.

Outro caso é o de Rena Amorim, que tenta reverter na Justiça uma multa de R$ 210 mil. Dos cinco hectares de pastagem que possuía, três estão praticamente comprometidos pela pressão do ICMBio.

Dona Marlene Pedro e o esposo, Sinval Ribeiro, moradores da comunidade Água Boa II, em Rio Pardo de Minas, disseram que perderam a paz no cultivo da terra. “A gente vive com medo. Não dá mais pra trabalhar sem pensar se a multa vai chegar amanhã”, desabafou a agricultora.

O sitiante Elcidio Pinheiro coutrinho conhecido como Véio, da comunidade Sítio Novo, em Vargem Grande, foi multado em R$ 64 mil. A revolta dele é compartilhada por muitos: “Nunca tivemos orientação nenhuma. O valor da multa é maior que o preço da terra onde a gente vive”.

História ainda mais dramática é a de João Ferreira de Oliveira, o João Duzentos, da comunidade Água Fria. Ele comprou sua terra em 1999, regularizou documentos, desmatou áreas com licença e plantou eucalipto e pastagem. Mesmo assim, em 2021, sete anos após a criação da reserva, foi autuado em mais de R$ 400 mil. “O terreno não vale isso. Minha família perdeu o rumo”, me disse, com os olhos marejados.

Moradores de diversas comunidades afirmam que vivem sob medo constante e que não houve orientação prévia antes das autuações. Muitos destacaram que os valores superam o preço das próprias terras.

Agora, todas as esperanças estão depositadas na atuação da promotora Larissa Prado, que ouviu atentamente as pessoas afetadas pela opressão do ICMBio.

Também ouvi o relato de Dona Claudineia Fialho, tesoureira da Associação de Moradores do Brejo, em Vargem Grande, que resumiu a situação em uma frase dura e direta: “O povo tá preocupado e quer uma solução”.

O anfitrião, prefeito Gabriel, apresentou iniciativas ambientais que já vêm sendo desenvolvidas pelo município e foi elogiado pela promotora de Justiça, doutora Larissa Prado, que participou ativamente da audiência e ouviu cada depoimento com atenção.

Na segunda-feira (22/09), acompanhei em Vargem Grande do Rio Pardo uma audiência marcada por denúncias de pequenos produtores rurais contra as multas milionárias aplicadas pelo ICMBio. O prefeito Gabriel apresentou projetos ambientais já implantados no município, elogiados pela promotora Larissa Prado.

Do lado do ICMBio, a representante Caroline, vinda de Brasília, esteve presente, mas preferiu uma fala cautelosa, limitando-se a ouvir os relatos e fazer alguns questionamentos.

É importante lembrar que a Reserva Nascentes Geraizeiras foi criada em 2014, por decreto da então presidenta Dilma Rousseff, em pleno ano eleitoral. Desde o início, o processo foi marcado por denúncias de inconsistências — inclusive a suposta manipulação de atas — já que, segundo os moradores, a maioria absoluta da população nunca assinou nada em apoio à criação da unidade. Mais grave ainda: o plano de manejo, que deveria ser elaborado antes da atuação do órgão, só foi publicado dez anos depois, em 2024.

Fica a dúvida que ecoou durante todo o encontro: como é possível aplicar multas milionárias em anos anteriores à publicação oficial do plano de manejo? Qual é a legitimidade dessas autuações?

Saí da reunião com a certeza de que a situação é muito maior do que números em papéis oficiais. O que está em jogo é a sobrevivência de comunidades inteiras que vivem em harmonia com a terra há gerações. O sertanejo não pede privilégios; pede apenas justiça, equilíbrio e o direito de continuar vivendo do que planta e cria.

Agora, todas as esperanças estão depositadas na atuação da promotora Larissa Prado, que demonstrou sensibilidade diante do drama vivido pelas famílias e sinalizou interesse em defender o povo simples, que só deseja continuar existindo dignamente no sertão mineiro.

Veja Mais

Artigos Relacionados:

Centro de Grão Mogol, com a igreja e a praça da cidade.

Grão Mogol: a cidade das pedras e das águas encanta com sua história e belezas naturais

Localizada na parte mais alta da Serra Geral, no Norte de Minas Gerais, Grão Mogol é um destino que transborda belezas naturais, biodiversidade e uma rica herança ligada aos diamantes e ao período colonial dos séculos XVI e XIX. A história pulsante dessa cidade pode ser encontrada nas ruas e vielas, cuja pavimentação foi erguida com a mão de obra dos escravizados. Nas trilhas e

Se antes a angústia era a ausência de água, hoje é o excesso. Alagamentos em cidades como Porteirinha, Espinosa, Salinas e Juramento, famílias retiradas de suas casas, extravasamento de barragens, ruas submersas, prejuízos materiais e emocionais. A pergunta que ecoa é inevitável: estamos preparados?

ENTRE A SECA E O EXCESSO: QUEM VAI PLANEJAR O FUTURO DO NORTE DE MINAS?

Por Aurélio Vidal Eu percorro o Norte de Minas há anos. Já caminhei por estradas rachadas pela estiagem, já ouvi o lamento de produtores rurais vendo o gado emagrecer por falta d’água, já relatei o drama de comunidades inteiras dependendo de carro-pipa. A crise hídrica sempre foi nossa velha conhecida — e, sejamos honestos, nunca foi efetivamente resolvida. Agora, a preocupação parece inversa. Se antes

Neste domingo, a cidade de Porteirinha emitiu um alerta extremo diante do risco de rompimento da Barragem das Lajes, após o volume intenso de chuvas registrado nas últimas horas. A preocupação é real, sobretudo para os moradores da comunidade das Lajes e regiões vizinhas, que vivem agora dias de apreensão e incerteza.

PORTEIRINHA EM ALERTA EXTREMO: QUANDO A ÁGUA AMEAÇA O NOSSO CHÃO

  Por Aurélio Vidal Nas minhas andanças pelo Norte de Minas, aprendi a respeitar o tempo da chuva. O sertanejo sempre pediu água ao céu. Mas quando ela vem em excesso, também ensina que a natureza exige vigilância e responsabilidade. Neste domingo, a cidade de Porteirinha emitiu um alerta extremo diante do risco de rompimento da Barragem das Lajes, após o volume intenso de chuvas

Há caminhos que não se percorrem apenas com máquinas potentes e pneus cravados no chão — percorrem-se com alma, coragem e espírito de aventura. E foi exatamente assim que aconteceu, neste final de semana (20/21), a 5ª edição da Expedição Diamantina de UTV, um evento que já se consolida como tradição no calendário do off-road mineiro.

EXPEDIÇÃO DIAMANTINA DE UTV

Por Aurélio Vidal Há caminhos que não se percorrem apenas com máquinas potentes e pneus cravados no chão — percorrem-se com alma, coragem e espírito de aventura. E foi exatamente assim que aconteceu, neste final de semana (20/21), a 5ª edição da Expedição Diamantina de UTV, um evento que já se consolida como tradição no calendário do off-road mineiro. Realizada pelo grupo UTV-MOC, com o

Há caminhos que não se medem apenas em quilômetros, mas em história, superação e paisagem. A Expedição Off Road – Expedição Diamantina de UTV, promovida pelo grupo UTV-MOC, retorna a um de seus roteiros mais emblemáticos: o tradicional trajeto Buenópolis–Diamantina, reafirmando o espírito aventureiro, esportivo e histórico que marca o evento, programado para o dia 20 de fevereiro (sexta-feira).

EXPEDIÇÃO BUENÓPOLIS / DIAMANTINA DE UTV

Um roteiro de muita aventura e adrenalina Há caminhos que não se medem apenas em quilômetros, mas em história, superação e paisagem. A Expedição Off Road – Expedição Diamantina de UTV, promovida pelo grupo UTV-MOC, retorna a um de seus roteiros mais emblemáticos: o tradicional trajeto Buenópolis–Diamantina, reafirmando o espírito aventureiro, esportivo e histórico que marca o evento, programado para o dia 20 de fevereiro

Centro de Grão Mogol, com a igreja e a praça da cidade.

Grão Mogol: a cidade das pedras e das águas encanta com sua história e belezas naturais

Localizada na parte mais alta da Serra Geral, no Norte de Minas Gerais, Grão Mogol é um destino que transborda belezas naturais, biodiversidade e uma rica herança ligada aos diamantes e ao período colonial dos séculos XVI e XIX. A história pulsante dessa cidade pode ser encontrada nas ruas e vielas, cuja pavimentação foi erguida com a mão de obra dos escravizados. Nas trilhas e

Se antes a angústia era a ausência de água, hoje é o excesso. Alagamentos em cidades como Porteirinha, Espinosa, Salinas e Juramento, famílias retiradas de suas casas, extravasamento de barragens, ruas submersas, prejuízos materiais e emocionais. A pergunta que ecoa é inevitável: estamos preparados?

ENTRE A SECA E O EXCESSO: QUEM VAI PLANEJAR O FUTURO DO NORTE DE MINAS?

Por Aurélio Vidal Eu percorro o Norte de Minas há anos. Já caminhei por estradas rachadas pela estiagem, já ouvi o lamento de produtores rurais vendo o gado emagrecer por falta d’água, já relatei o drama de comunidades inteiras dependendo de carro-pipa. A crise hídrica sempre foi nossa velha conhecida — e, sejamos honestos, nunca foi efetivamente resolvida. Agora, a preocupação parece inversa. Se antes

Neste domingo, a cidade de Porteirinha emitiu um alerta extremo diante do risco de rompimento da Barragem das Lajes, após o volume intenso de chuvas registrado nas últimas horas. A preocupação é real, sobretudo para os moradores da comunidade das Lajes e regiões vizinhas, que vivem agora dias de apreensão e incerteza.

PORTEIRINHA EM ALERTA EXTREMO: QUANDO A ÁGUA AMEAÇA O NOSSO CHÃO

  Por Aurélio Vidal Nas minhas andanças pelo Norte de Minas, aprendi a respeitar o tempo da chuva. O sertanejo sempre pediu água ao céu. Mas quando ela vem em excesso, também ensina que a natureza exige vigilância e responsabilidade. Neste domingo, a cidade de Porteirinha emitiu um alerta extremo diante do risco de rompimento da Barragem das Lajes, após o volume intenso de chuvas

Há caminhos que não se percorrem apenas com máquinas potentes e pneus cravados no chão — percorrem-se com alma, coragem e espírito de aventura. E foi exatamente assim que aconteceu, neste final de semana (20/21), a 5ª edição da Expedição Diamantina de UTV, um evento que já se consolida como tradição no calendário do off-road mineiro.

EXPEDIÇÃO DIAMANTINA DE UTV

Por Aurélio Vidal Há caminhos que não se percorrem apenas com máquinas potentes e pneus cravados no chão — percorrem-se com alma, coragem e espírito de aventura. E foi exatamente assim que aconteceu, neste final de semana (20/21), a 5ª edição da Expedição Diamantina de UTV, um evento que já se consolida como tradição no calendário do off-road mineiro. Realizada pelo grupo UTV-MOC, com o

Há caminhos que não se medem apenas em quilômetros, mas em história, superação e paisagem. A Expedição Off Road – Expedição Diamantina de UTV, promovida pelo grupo UTV-MOC, retorna a um de seus roteiros mais emblemáticos: o tradicional trajeto Buenópolis–Diamantina, reafirmando o espírito aventureiro, esportivo e histórico que marca o evento, programado para o dia 20 de fevereiro (sexta-feira).

EXPEDIÇÃO BUENÓPOLIS / DIAMANTINA DE UTV

Um roteiro de muita aventura e adrenalina Há caminhos que não se medem apenas em quilômetros, mas em história, superação e paisagem. A Expedição Off Road – Expedição Diamantina de UTV, promovida pelo grupo UTV-MOC, retorna a um de seus roteiros mais emblemáticos: o tradicional trajeto Buenópolis–Diamantina, reafirmando o espírito aventureiro, esportivo e histórico que marca o evento, programado para o dia 20 de fevereiro

Quer ver mais conteúdos?

Assine Nossa Newsletter

E fique por dentro do contexto de Minas e de tudo que acontece no Brasil e no mundo.

Pod Sertão Pautando o melhor do Sertão Mineiro

Olá, visitante