Por Aurélio Vidal
Como jornalista e como filho do sertão norte-mineiro, sempre me emociona testemunhar quando alguém da nossa terra decide romper limites. E é impossível não lembrar disso quando falo de Frederico Caetano Burle Carneiro de Abreu, o Fred Burle — filho do nosso amigo e ex-prefeito de Buritizeiro, Luizinho Carneiro — que transformou coragem em destino.
Em 2010, Fred tomou uma decisão que mudaria tudo. Pediu a bênção ao pai, disse que iria “ganhar o mundo em busca do seu sonho” e, com a determinação típica do sertanejo, vendeu o seu carro — um Ford Ka — e o que mais tinha para juntar algum dinheiro. Primeiro foi para Brasília, com um tio em um cartório, estudou e deu os passos iniciais que o levariam ainda mais longe. De lá, seguiu para a Alemanha.

Exemplo de superação
Chegando em Berlim, com determinação e improviso, recolheu móveis descartados nas calçadas para montar o próprio lar. Pouquíssimos brasileiros — talvez nenhum outro — haviam conquistado o que ele alcançou: ser aprovado na prestigiada Academia Alemã de Cinema (DFFB). Estudou, produziu curtas, acumulou prêmios e começou a trilhar um caminho que o colocaria entre os nomes mais influentes do cinema independente contemporâneo.
Nascido em Pirapora, em 14 de outubro de 1983, hoje com 41 anos, ao lado da parceira Sol Bondy, Fred transformou a One Two Films numa força global. Levou filmes à Berlinale, venceu a Câmera de Ouro em Cannes com Armand, brilhou com Holy Spider e apresentou, pela primeira vez, uma produção na competição principal de Cannes. Agora, vive um dos momentos mais marcantes da carreira: é co-produtor do filme Agente Secreto, na expectativa pela indicação ao Oscar 2025.
Com Zejtune e Calle Málaga em pós-produção e outros projetos internacionais em andamento, Fred segue movido pela mesma bússola que o tirou de Pirapora: relevância, urgência e histórias que precisam ser contadas. Ele sempre diz que a chave é equilibrar financiamento público, capital privado e criatividade — mas, acima de tudo, apostar na alma da narrativa.
Mesmo tendo cruzado oceanos, Fred carrega uma convicção simples, quase sagrada:
“Eu acredito no ritual da sala escura. Se o filme for bom, as pessoas sempre voltam.”
E assim segue Fred Burle: o menino de Pirapora que vendia sonhos na locadora, o jovem sertanejo que partiu sem garantias, o filho de Luizinho Carneiro que pediu a bênção para ganhar o mundo — e ganhou.
Hoje, caminha entre festivais e fronteiras como quem continua atravessando o rio São Francisco ao entardecer: firme, silencioso e guiado pela fé de que, além da próxima curva, sempre haverá outro horizonte à espera.




