Por Aurélio Vidal – jornalista e pesquisador
Voltar a Paracatu é como abrir um velho baú de memórias e encontrar, entre poeira e afeto, as marcas vivas da história do Brasil profundo. Conheci essa cidade em 1982, ainda adolescente, quando vim para o casamento de Florisval Ferreira — natural de Montes Claros, mais que se tornou um personagem importante da vida paracatuense — filho do meu saudoso patrão José Vicentino Ferreira. Era um tempo em que tudo parecia correr mais devagar, e as estradas não eram apenas caminhos, mas espaços de conversa, troca e aprendizado. Alguns anos depois, no inicio dos anos 90, retornei como mascate e fiz amigos, inclusive no antigo bairro Paracatuzinho, onde sempre ficava alojado. Hoje, retorno por outros rumos: como jornalista e pesquisador, movido pelo desejo de compreender mais de perto o patrimônio histórico-cultural, a cadeia produtiva e a vocação turística dessa terra singular do Noroeste mineiro.
Nesta última visita, fiz uma verdadeira imersão. Caminhei pelas ruas antigas, observei fachadas que resistem ao tempo, ouvi histórias contadas com orgulho e simplicidade. Paracatu não é apenas um ponto no mapa: é um território de encontros entre o Brasil colonial e o Brasil contemporâneo, entre a rusticidade do sertão e a sofisticação de uma cultura que aprendeu a se reinventar.

Caminhar até o Chafariz da Traiana foi como ouvir a água do tempo escorrendo pela pedra, misturando fé, arte e memória viva da história de Paracatu.
A história dessa região começa muito antes das placas e dos registros oficiais. O interior do Brasil foi desbravado por pecuaristas, sertanistas e aventureiros ainda no período colonial. Desde o final do século XVI, o Noroeste de Minas já era perscrutado por bandeiras que avançavam mata adentro, abrindo caminhos e deixando rastros. Anos depois, no século XVIII, o brilho do ouro revelou ao mundo o Vale do Paracatu, marcando ali a última grande descoberta aurífera de Minas Gerais.
Quando o ouro foi oficialmente comunicado à Coroa, o arraial já existia, com casas erguidas, igrejas levantadas e vida pulsando. O crescimento foi rápido, quase vertiginoso. Das águas e dos veios brotava riqueza, e o antigo Arraial de São Luiz e Sant’Anna das Minas do Paracatu tornou-se, em 1798, a Vila de Paracatu do Príncipe. Mas, como tantas outras histórias do ouro, a abundância foi passageira. O declínio da mineração aluvial trouxe dificuldades, deixando como herança não a fortuna, mas a memória.

Nesta visita, estreitei laços e plantei novas amizades, dessas que nascem importantes e ajudam a dar ainda mais sentido ao caminho.
Essa memória ainda hoje se impõe. As igrejas do século XVIII — como a Matriz de Santo Antônio, a Igreja do Rosário dos Pretos e a de Sant’Anna — permanecem como guardiãs do tempo, abrigando imagens sacras, fé e identidade. Não por acaso, o conjunto arquitetônico da cidade foi reconhecido e tombado pelo IPHAN, consolidando Paracatu como uma das joias históricas de Minas Gerais.

Passar pelas igrejas de Santo Antônio e Sant’Ana foi como entrar em silêncio com o tempo, onde a fé antiga, a arte barroca e as lembranças de outras décadas ainda rezam nas paredes de Paracatu.

Após a decadência do ouro, a cidade reencontrou seu rumo na agropecuária e viveu, no século XIX, uma intensa efervescência cultural. Esse espírito criativo permanece vivo nas manifestações religiosas, na culinária típica — com destaque para o empadão paracatuense —, nas tradições populares e na resistência das comunidades quilombolas, que mantêm vivas as raízes de um Brasil plural.
No século XX, a construção de Brasília deu novo fôlego à região. A proximidade com a capital federal e a posição estratégica às margens da BR-040 integraram Paracatu a um novo ciclo de desenvolvimento. A modernidade chegou trazendo transformações profundas: agricultura altamente tecnificada, pecuária intensiva e uma mineração de padrão internacional, convivendo, lado a lado, com práticas tradicionais de subsistência que ainda desenham o cotidiano rural.

Não tive como passar sem entrar na Casa Legislativa: uma edificação linda e imponente, fincada no coração do centro histórico, onde arquitetura e história caminham lado a lado.
O que mais me chamou atenção nessa imersão foi justamente esse contraste. Paracatu é antiga e moderna ao mesmo tempo. É colonial e contemporânea. É ouro, gado, grão, fé, cultura e hospitalidade. Um polo que irradia desenvolvimento, tecnologia e arte para todo o Noroeste de Minas, sem perder o jeito acolhedor de sua gente.

Vista do alto, Paracatu revela em silêncio o seu crescimento: uma cidade que se expande, sem apagar as marcas do tempo que a fundaram.
Paracatu — cujo nome carrega sentidos ancestrais e poéticos — segue firme, orgulhosa de sua história e aberta ao futuro. Terra de contrastes e permanências, ela não se limita a ser visitada: ela se deixa sentir. E quem passa por aqui, invariavelmente, leva um pouco dela consigo.




