Como jornalista e pesquisador, acompanhando de perto a realidade dos municípios do Norte de Minas, recebi com atenção — e certa dose de esperança — a mobilização liderada pela Associação dos Municípios da Área Mineira da Sudene (AMAMS), anunciada nesta sexta-feira.
A proposta vai além de um simples movimento institucional. Trata-se de uma articulação política estratégica que busca corrigir uma distorção na legislação federal — mais especificamente na Lei 14.133/2020 — que, na prática, tem ignorado as particularidades socioeconômicas da nossa região. O foco é garantir que os municípios inseridos na área da Sudene em Minas Gerais tenham acesso integral ao Valor Aluno Ano do Fundeb (VAAF), algo que hoje não ocorre de forma justa.

Se essa correção avançar, o impacto será significativo: estamos falando de algo em torno de R$ 341 milhões por ano apenas para o Norte de Minas. Quando ampliamos o olhar para os 249 municípios da área mineira da Sudene, esse volume pode ultrapassar R$ 870 milhões. Não é apenas um número — é a possibilidade concreta de transformação estrutural na educação pública.
Durante o anúncio, o presidente da AMAMS e prefeito de São João da Lagoa, Ronaldo Soares Mota Dias, confirmou que acatou a sugestão da prefeita Elbe Brandão, de Nova Porteirinha, para organizar uma mobilização em Brasília. A chamada “Marcha dos Prefeitos” surge como um gesto político forte, que pretende pressionar por uma revisão da legislação e pelo reconhecimento das desigualdades regionais.

Na prática, o que está em jogo é o reconhecimento de uma realidade que quem percorre o sertão mineiro conhece bem: não somos iguais ao restante do estado em termos de desenvolvimento, e tratar de forma homogênea o que é desigual acaba perpetuando injustiças.
A fala de Elbe Brandão reforça esse sentimento. Não se trata de reivindicar privilégios, mas de exigir equidade. O Norte de Minas está inserido na Sudene não apenas por um recorte legal, mas por sua realidade social e econômica. E isso precisa ser refletido na distribuição dos recursos educacionais.
Outro ponto que merece destaque foi trazido pela prefeita de Ibiaí e diretora da AMAMS, Maurinha Fonseca. Segundo ela, a atual defasagem nos repasses compromete diretamente a gestão da educação municipal. Muitos prefeitos têm sido obrigados a recorrer a recursos próprios para cumprir obrigações básicas, como o pagamento do piso nacional do magistério e a manutenção das escolas.

Na minha leitura, essa mobilização representa mais do que uma pauta administrativa — ela expõe um debate antigo sobre desigualdade regional, financiamento público e prioridades nacionais. Se houver unidade política e pressão institucional consistente, esse movimento pode, de fato, marcar um ponto de virada para a educação no Norte de Minas.
E, como sempre digo ao longo das minhas andanças por essa região: desenvolvimento de verdade começa na base — e essa base atende pelo nome de educação.




