JAÍBA, ENTRE RIOS E SONHOS
Por Aurélio Vidal
Comecei a percorrer por aquelas bandas lá pelos idos dos anos 80, nos meus bons tempos de mascate, quando o sertão ainda era um grande vazio de promessas, mas já sussurrava ao vento a vontade de florescer. Com o sacolão nas costas e os olhos atentos, eu atravessava estradas de chão, conhecia rostos marcados pelo sol e ouvia histórias que a cidade grande nunca saberia contar.
Foi assim que me aproximei da história do Projeto Jaíba, que nascia entre os rios São Francisco e Verde Grande como uma esperança molhada em sonho e irrigada por fé. Lá nos anos 50, estudiosos estrangeiros apontaram o potencial da terra. Minas acreditou. Começou pequeno, com a Ruralminas, testando em Mocambinho. Depois vieram o governo federal, a Codevasf e o dinheiro do BIRD, trazendo força e infraestrutura para o sertão produzir.
Na virada dos anos 80 para os 90, vi as primeiras famílias de irrigantes chegarem com o mesmo espírito valente dos bandeirantes. O Japão aportou com novos recursos e, da união da técnica com a vontade de vencer, nasceu o Distrito de Irrigação de Jaíba — administrado por quem mais entende de água e terra: o próprio povo que planta.
Jaíba virou símbolo. Uma parceria rara entre governos e iniciativa privada, entre sonho coletivo e suor individual. Hoje, quando caminho entre os canais e os campos, sinto que essa terra é minha também. Não por propriedade, mas por pertencimento.
Jaíba não é só um projeto. É a colheita viva de um sertão que aprendeu a vencer a seca com organização, coragem e amor à terra.
As primeiras famílias chegaram com a ousadia de quem planta o futuro sem garantias. Em Mocambinho, vi os canais tomarem forma e a terra, antes bruta, se entregar à lavoura. O Japão entrou com o fôlego financeiro. O Brasil, com sua gente trabalhadora. E então, o Distrito de Irrigação de Jaíba nasceu, administrado pelos próprios irrigantes — exemplo de gestão coletiva no sertão que aprendeu a pensar grande.
Hoje, olho para Jaíba como quem vê um filho crescer. Aquele chão que percorri como mascate agora é celeiro, é vida, é potência. Um projeto que uniu o poder público, a iniciativa privada e o suor do sertanejo, provando que o Norte de Minas não é periferia de nada — é centro de possibilidades.
E eu sigo contando essa história. Porque fui mascate, sou jornalista, mas acima de tudo… sou um apaixonado pelo sertão e parte dessa caminhada.