A comunidade do Macuco está de luto!
Recebi, nesta manhã de quinta-feira, com profunda tristeza, a notícia do falecimento do nosso amigo José de Souza, o querido Seu Zé, uma das grandes referências da comunidade quilombola do Macuco, na zona rural de Curral de Dentro. Ele fez sua passagem ontem, 26 de agosto, aos 108 anos de idade, deixando uma imensa lacuna em sua comunidade e no coração de todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo.
Tive a alegria e o privilégio de conhecer Seu Zé e de compartilhar com ele algumas boas prosas. Um sertanejo simples, que, devido a um problema auditivo, escutava muito pouco. De fala mansa e jeito acolhedor, carregava, porém, uma grandeza humana que não cabia em sua simplicidade. Era um homem de raízes profundas, fincadas na terra, na memória e nos saberes de seu povo.
Seu Zé era muito bem cuidado por sua filha, Maria dos Santos. Já em idade bastante avançada, enfrentou uma pneumonia e acabou nos deixando.

Em uma das vezes em que estive em sua casa, recebi dele um presente que guardo com especial carinho: uma gamela de madeira, feita por suas próprias mãos há mais de 80 anos, quando ainda era jovem. Mais do que um simples objeto, aquela gamela carrega hoje a força de uma história, o talento de um homem do sertão e um pedaço vivo da memória quilombola do Macuco.
Seu Zé me foi apresentado pela querida Dona Laurita Lima, grande e valorosa liderança comunitária, presidente da associação da comunidade e esposa do Seu Jackson. Foi ela quem hoje me trouxe essa triste notícia.

A ela, aos familiares, aos amigos e a toda a comunidade do Macuco, manifesto minha solidariedade e meu abraço fraterno neste momento de dor.
Aos 108 anos, Seu Zé atravessa o tempo e parte deixando muito mais do que saudade. Deixa memória, ensinamentos, afetos e raízes. Seu nome permanecerá entre aqueles que ajudaram a construir, com trabalho, dignidade e resistência, a história de seu povo.
Que o chão sagrado do sertão, que tantas vezes testemunhou seus passos, agora acolha seu corpo cansado. E que sua memória permaneça viva como uma árvore antiga: com raízes profundas na ancestralidade e seus galhos estendidos sobre as novas gerações.
Descanse em paz, Seu Zé.
A sua prosa termina, mas a sua história continua.
Por: Aurélio Vidal — jornalista e pesquisador




