Por Aurélio Vidal – Jornalista
Escrevo estas linhas não apenas como jornalista e pesquisador, mas como alguém que vive, atua e resiste no Norte de Minas Gerais — uma região historicamente esquecida pelo sistema, abandonada em investimentos estruturantes, carente de infraestrutura hospitalar digna e tratada como periferia política de um país que se diz democrático. Daqui, onde sempre fiz questão de fazer a minha parte na cobrança pela preservação dos direitos constitucionais e pela liberdade, a indignação não é discurso: é vivência.
Volta e meia me pego lembrando das falas inflamadas de artistas que, em 2022, se colocaram como paladinos da moral e da consciência social, atacando duramente o então presidente Jair Bolsonaro. Lembro bem de discursos da atriz Taís Araújo, de manifestações indignadas sobre queimadas na Amazônia e de uma classe artística que se apresentava como voz dos oprimidos. Curiosamente, hoje o silêncio é ensurdecedor.
Mais recentemente, assisti ao ator Wagner Moura — beneficiado, segundo dados amplamente divulgados, por cerca de R$ 7,5 milhões em recursos públicos para um de seus filmes — usar um palco internacional, como o Globo de Ouro, para tentar desqualificar Bolsonaro mais uma vez. Nada contra opinião política. O problema é a hipocrisia institucionalizada. Afinal, enquanto a classe artística recebe aportes bilionários via leis de incentivo, fundos e editais, professores — muitos deles militantes que estiveram na linha de frente da campanha deste governo — seguem desvalorizados, com salários corroídos e promessas vazias.

Hoje, as queimadas batem recordes. Os rombos nos cofres públicos também. Escândalos, desvios e má gestão se acumulam sob o olhar complacente de um sistema judicial que, para muitos brasileiros, parece mais empenhado em oprimir o povo e silenciar opositores por “crime de opinião” do que em garantir isonomia. Enquanto isso, figuras poderosas do mercado financeiro, como Daniel Vorcaro, do Banco Master, transitam livremente em meio a denúncias e controvérsias, amparadas por estruturas jurídicas caríssimas — inclusive com a contratação de advogada que, coincidentemente, é esposa de ministro do STF. Já o cidadão comum, especialmente o mais simples, é tratado com mão pesada apenas por questionar o sistema ou participar de manifestações pacíficas.
Do Norte de Minas, onde faltam leitos hospitalares, médicos especialistas e obras estruturantes básicas, a sensação é de que o Estado só chega para cobrar imposto, multar ou reprimir. E cobrar imposto, aliás, virou obsessão. O arrocho na carga tributária avança sem piedade, sufocando quem produz, trabalha e empreende. Soma-se a isso o escandaloso rombo no INSS, que ameaça aposentadorias e expõe mais uma vez a irresponsabilidade com o dinheiro do povo.
A pergunta que não quer calar é: até quando a população brasileira vai aceitar esse tipo de governo?
O mundo começa a dar sinais claros de esgotamento. No Nepal, em setembro de 2025, uma onda de protestos liderada pela Geração Z explodiu após o governo comunista bloquear redes sociais como Facebook, Instagram e YouTube. O resultado foi a maior crise política do país em anos, culminando na renúncia do primeiro-ministro. Em Madagascar, em outubro de 2025, protestos inicialmente motivados pela falta de água e energia evoluíram para uma revolta contra a corrupção e a ausência de serviços básicos, forçando o presidente a deixar o país.
No Irã, desde 2022 e novamente no início de 2026, jovens desafiaram a teocracia em protestos massivos, reprimidos com violência extrema e milhares de mortes, segundo organizações internacionais. No Sri Lanka, o movimento “Aragalaya” mostrou a força da juventude contra a crise econômica e a corrupção. No Quênia, em 2024, manifestações contra políticas do governo terminaram em confrontos, mortes e feridos. Casos semelhantes também surgiram no Marrocos, na Indonésia e em outras nações.
Todos esses episódios revelam uma tendência global: a paciência acabou. Movimentos impulsionados pela Geração Z, organizados e amplificados pelas redes sociais, escancaram a insatisfação com a corrupção, a má gestão, a censura e o distanciamento brutal entre governos e governados.
Aqui do sertão norte-mineiro, onde o abandono é regra e a resistência virou identidade, sigo fazendo o que sempre fiz: questionar, cobrar e incomodar. Porque a história mostra que nenhum sistema injusto cai por vontade própria. E quando o povo desperta, não há censura, propaganda ou dinheiro público que consiga conter.




