A DECEPÇÃO QUE ECOA DO NORTE DE MINAS ATÉ BRASÍLIA
Por Aurélio Vidal
Como mineiro, norte-mineiro e jornalista, carrego comigo uma responsabilidade que não é leve. A função que exerço há décadas me impõe o compromisso com a verdade factual, com a sobriedade na análise e com a defesa intransigente da democracia e da coisa pública. Não escrevo movido por paixões momentâneas, mas por convicções amadurecidas ao longo de anos caminhando pelo Sertão Mineiro, ouvindo seu povo e testemunhando suas dores.
Faço uso aqui da liberdade de expressão — direito constitucional assegurado a todo cidadão brasileiro — para manifestar meu profundo sentimento de decepção em relação à Ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia.
Digo isso com respeito institucional ao cargo que Vossa Excelência ocupa, mas com a franqueza que sempre pautou minha trajetória profissional. A decepção que hoje ecoa em muitos lares do Norte de Minas não nasce de ataques pessoais, tampouco de desinformação. Ela nasce da percepção — legítima e amplamente debatida no espaço público — de decisões que, aos olhos de significativa parcela da sociedade, parecem se distanciar do sentimento de justiça e de segurança jurídica que o cidadão comum espera da mais alta Corte do país.
Não ignoro a complexidade das matérias que chegam ao Supremo. Sei que o Direito é técnico, que as decisões são colegiadas e que o Judiciário não se move por clamor popular. Contudo, também sei que nenhuma instituição está imune ao escrutínio público. A crítica fundamentada é parte da democracia — e não sua inimiga.
Aqui no sertão, essa decepção assume contornos ainda mais simbólicos. Saber que Vossa Excelência nasceu neste solo árido e resiliente despertou, no passado, orgulho e esperança. O Norte de Minas é região historicamente esquecida por políticas estruturantes consistentes, marcada por promessas que raramente se concretizam e por uma luta diária pela dignidade. Quando uma filha desta terra alcança posição tão elevada na República, o sentimento natural é de representação e pertencimento.
Por isso, quando decisões recentes geram perplexidade ou são interpretadas como excessivamente lenientes em determinados contextos amplamente discutidos na sociedade, a frustração se torna mais aguda. Não por divergência ideológica, mas por expectativa moral. O povo sertanejo é simples, mas não é ingênuo. Ele entende quando sente que há desalinhamento entre a Justiça ideal e a Justiça percebida.
Também registro minha decepção em relação ao senador Rodrigo Pacheco, figura eleita pelo voto popular e, portanto, diretamente vinculada à confiança do eleitor mineiro. O exercício do mandato parlamentar exige posicionamentos claros e coerentes com as expectativas daqueles que depositaram nas urnas seu voto de confiança. A crítica que faço é política, não pessoal — e se insere no campo legítimo do debate democrático.
Não é Ataque, é Cobrança: A Voz de um Jornalista do Sertão
Reafirmo: não escrevo para atacar instituições. Ao contrário. Escrevo porque acredito nelas. A democracia se fortalece quando o cidadão participa, questiona e cobra coerência. O silêncio, esse sim, enfraquece.
Sigo como guardião da voz sertaneja, não por título autoproclamado, mas por missão assumida. Continuarei denunciando abusos quando entender que existam, cobrando responsabilidade dos agentes públicos e defendendo, acima de tudo, o direito do nosso povo a ser respeitado.
Que Deus ilumine nossas autoridades. Que a prudência prevaleça sobre a vaidade. E que o coração do nosso povo — tantas vezes pressionado pelas adversidades — jamais perca a esperança de que a Justiça, em sua essência mais pura, continue sendo o último abrigo da dignidade brasileira.
Aurélio Vidal
Jornalista
Sertão Mineiro




