SEMPRE COM UM PÉ ATRÁS

Um alerta Não se trata de ser contra o desenvolvimento ou contra investimentos em energia limpa. Muito pelo contrário: precisamos de soluções sustentáveis e de oportunidades para o nosso povo. Mas a experiência me obriga a dizer: é preciso ter um pé atrás.

Por Aurélio Vidal – Jornalista

O Norte de Minas vive a expectativa para a inauguração do Centro de Tecnologia e Inovação Agroindustrial da Acelen Renováveis, em Montes Claros, nesta sexta-feira (29). O projeto, conhecido como Acelen Agripark, promete transformar a região em referência na produção de Combustível Sustentável de Aviação (SAF) e Diesel Verde (HVO), com previsão de gerar 1 bilhão de litros por ano até 2028.

O investimento é grandioso: R$ 314 milhões, dos quais R$ 258 milhões são financiados pelo BNDES. O empreendimento integra a futura biorrefinaria da empresa na Bahia e se apresenta como símbolo de inovação, tecnologia e desenvolvimento sustentável.

A lembrança de projetos inacabados
Entretanto, não consigo deixar de recordar outras iniciativas semelhantes que ficaram pelo caminho. Um exemplo marcante foi o da Petra Energia S/A, que instalou um poço de extração de gás em São João da Lagoa, a apenas 60 km de Montes Claros.

A lembrança de projetos inacabados

Entretanto, não consigo deixar de recordar outras iniciativas semelhantes que ficaram pelo caminho. Um exemplo marcante foi o da Petra Energia S/A, que instalou um poço de extração de gás em São João da Lagoa, a apenas 60 km de Montes Claros. A estrutura foi levantada, recursos foram aplicados, expectativas criadas… e, de repente, tudo foi abandonado às pressas, sem explicações aos proprietários do terreno nem à sociedade. Eu estive lá, registrei imagens e pude constatar a dimensão de uma obra milionária que se tornou apenas um rastro de frustração.

O Norte de Minas vive a expectativa para a inauguração do Centro de Tecnologia e Inovação Agroindustrial da Acelen Renováveis, em Montes Claros, nesta sexta-feira (29).

Esse histórico faz com que eu, como jornalista que acompanha de perto os movimentos econômicos e políticos da região, mantenha cautela e desconfiança diante de anúncios dessa magnitude. 

Cautela é necessária

O Acelen Agripark pode, sim, representar uma virada de chave para o sertão mineiro. Mas também pode se revelar apenas mais um grande empreendimento viabilizado com recursos públicos, destinado a inflar discursos políticos e, futuramente, engrossar a lista dos chamados “elefantes brancos” do Brasil.

É fundamental que a sociedade acompanhe de perto cada etapa desse processo, fiscalize a aplicação dos recursos e cobre transparência. O entusiasmo não pode nos cegar para riscos que já se repetiram em governos anteriores, em especial quando se trata de projetos financiados pelo BNDES e vinculados a setores que já acumularam escândalos de desvio bilionário.

Um alerta

Não se trata de ser contra o desenvolvimento ou contra investimentos em energia limpa. Muito pelo contrário: precisamos de soluções sustentáveis e de oportunidades para o nosso povo. Mas a experiência me obriga a dizer: é preciso ter um pé atrás.

“Um detalhe que chama a atenção: a atual presidenta da Petrobras é Magda Chambriard, que já ocupou o cargo de diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP) exatamente entre 2012 e 2016, justamente no governo da ex-presidente Dilma Rousseff.”

Se esse projeto realmente prosperar, será um marco para Montes Claros e para o Brasil. Mas se não vingar, restará apenas mais um exemplo de como a esperança pode ser usada para justificar obras faraônicas sem retorno.

Conheça a trajetória da atual presidente da Petrobras, Magda Chambriard 

A engenheira Magda Chambriard, atual presidente da Petrobras, tem uma longa carreira no setor de petróleo e gás, marcada por passagens relevantes em órgãos reguladores e por polêmicas em sua gestão pública.

Carreira na ANP

Magda ingressou na Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em 2002, atuando inicialmente como assessora de diretoria. Em 2005, já no governo Lula, assumiu a Superintendência de Exploração (SEP), responsável pela regulação e fiscalização das atividades exploratórias em todo o território nacional.

No ano seguinte, acumulou a função de superintendente de Definição de Blocos (SDB), cargo estratégico para a delimitação das áreas ofertadas em leilões de petróleo e gás.

Após sabatina e aprovação no Senado Federal, tomou posse como diretora da ANP em novembro de 2008. Em março de 2012, foi nomeada diretora-geral da agência, em substituição a Haroldo Lima, função que exerceu até dezembro de 2016, quando foi sucedida por Décio Oddone.

Polêmicas e Críticas

Durante o período em que comandou a ANP, Magda Chambriard enfrentou críticas que colocaram em dúvida sua postura ética e técnica. Entre os pontos mais controversos de sua trajetória estão:

  • Conflito de interesses: recebeu salários da Petrobras mesmo após assumir cargos na ANP e também na Pré-Sal Petróleo S.A. (PPSA), estatal criada para gerir contratos do pré-sal. Essa sobreposição de funções levantou questionamentos sobre sua imparcialidade, já que ocupava ao mesmo tempo posições de reguladora e regulada.
  • Crise da OGX: foi alvo de críticas pela condução da crise que levou à derrocada da petroleira OGX (atual OGPar), fundada por Eike Batista. Magda chegou a elogiar publicamente a empresa, o que provocou alta momentânea das ações no mercado. Pouco depois, vieram à tona denúncias de fraude e divulgação de informações falsas pela direção da OGX, esquema investigado pelo Ministério Público Federal que levou ao indiciamento de Eike e outros executivos.
  • Resultados abaixo do esperado: durante sua gestão, os leilões de blocos petrolíferos organizados pela ANP apresentaram resultados aquém do previsto, com exceção de um leilão de pequenos campos que movimentou valores modestos.
  •  

De volta ao protagonismo

Após anos afastada da linha de frente do setor, Magda Chambriard voltou ao protagonismo em 2023, quando foi nomeada presidente da Petrobras pelo governo federal. Sua indicação gerou debates justamente pelo histórico de críticas durante a gestão na ANP e pelo momento estratégico que a estatal atravessa, em meio à necessidade de equilibrar investimentos em petróleo e gás com a transição energética para fontes mais limpas. Fonte: Wikipédia

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